Guerras frias
Ainda não há muitos anos (uns seis ou sete) havia nas universidades portuguesas quem ainda falasse em mundo bi-polar, com dois blocos regionais, já bem depois do fim da União Soviética. Sempre houve e sempre haverá quem não consiga acompanhar as mudanças. Mas acho que nem esses resistiriam à notícia de ontem, segundo a qual a NATO pediu à Rússia o envio de apoio aéreo (helicópteros) para o Afeganistão. E, no seguimento do que já havia sido acordado antes, parece que Medvedev aceitou, e que a força da NATO no Afeganistão contará com ajuda de Moscovo. E agora, já parece que a Guerra Fria já acabou mesmo, não? O que é preciso mais?
O verdadeiro perfil de Cathy Ashton
Quando se analisa o percurso de alguém no sentido de encontrar motivos que justifiquem a sua escolha para determinado cargo, as informações disponíveis nem sempre são as mais rigorosas. Ou seja: nem sempre se sabe tudo o que justificou determinada escolha.
Tudo o que escrevi e transcrevi sobre Cathy Ashton é verdade. Mas o que é ainda mais verdade é que Gordon Brown exigiu que o cargo de Alto-Representante para a Política Externa e de Segurança fosse para Londres, como trade-off pelo facto de ter prescindido da realização do referendo no Reino Unido, com todos os custos políticos que tal decisão comporta para um político como Gordon Brown. Este rótulo ficar-lhe-á aposto e permanecerá à disposição das críticas da direita britãnica. Uma vez que tinha de se encontrar uma mulher – já que o Presidente do Conselho era um homem (politicamente correcto oblige) - quem poderia ser? E que tal Cathy Ashton, a grande responsável pelo facto de a Câmara dos Lordes ter viabilizado o Tratado de Lisboa?
“Os senhores vierem até aqui porque nós dissemos que podiam mas agora não vão poder entrar”
Uma delegação de nove eurodeputados (de vários partidos e nacionalidades) que integram a delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Conselho Legislativo Palestiniano foi anteontem proibida de entrar em Gaza pelo governo israelita, umas três horas após este ter-lhes concedido autorização para entrar. Motivo? O de sempre: questões de segurança. Dá-se é a coincidência de neste espaço de três horas, lá longe, em Bruxelas, os Ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27, reunidos em Conselho, terem defendido – uma vez mais – o estabelecimento de um Estado palestiniano nas fronteiras de 1967 e o fim da expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia – incluindo, naturalmente, Jerusalém Oriental (ver aqui as conclusões do Conselho). Imaginar a postura do governo israelita a tomar esta decisão, perfeitamente indiferente aos europeus, tentar visualizar a cena em que um representante do governo israelita vem dizer à delegação que, afinal, vieram de Bruxelas a pensar que iam entrar em Gaza mas já não iam entrar, é um esforço necessário para começar a tentar compreender a psique dos governantes israelitas. É uma cena típica de mais.
Foto retirada de panoramio.com.
Segurança e Defesa no Tratado de Lisboa e Portugal
Entre os vários vectores da nova Política Comum de Segurança e Defesa (não obstante o novo nome, desconfio que “PESD”/”ESDP” irá manter-se…), há um que poderá levantar algumas questões relativas ao papel de Portugal: deverá Portugal integrar uma “Cooperação Estruturada Permanente” no domínio da defesa? Deverá Portugal avançar no pelotão da frente, à imagem do que fez com o Euro e com o Espaço Schengen?
Sim, claro. Portugal integra estas políticas porque só assim consegue manter a sua capacidade de influência, de influenciar e moldar decisões no sentido dos seus interesses e do seu pensamento e objectivos estratégicos. É por isso que Portugal participa nas missões internacionais. É por isso que tenta estar em cargos importantes em Bruxelas. É por isso que tenta exercer as Presidências de forma capaz (já agora: tenta – e consegue).
É que, hoje em dia, é essa a medida do poder de Portugal.
Minaretes II
Costuma dizer-se que em Portugal, país de brandos costumes e de muçulmanos a condizer, os níveis de integração são bastante positivos. Mas, quem são esses muçulmanos? De onde vêm, há quanto tempo tempo cá estão? Como se integram socialmente? Até que ponto a proveniência de muitos destes muçulmanos condiciona – positivamente – a sua integração?
Nina Clara Tiesler, investigadora do Instituto de Ciências Sociais, é a grande especialista neste tema. No descritivo de um dos projectos que coordena neste Instituto da Universidade de Lisboa, intitulado “Jovens Muçulmanos em Portugal. Religião e Cultura, Mobilidade e Cidadania“, traça uma breve caracterização social deste grupo.
“A presença muçulmana no Portugal contemporâneo é um fenómeno pós-colonial. À semelhança de outros antigos impérios europeus, em Portugal, a primeira vaga de imigração muculmana ocorreu antes da descolonização e por própositos educacionais – no nosso caso de Moçambique: estudantes solteiros do sexo masculino oriundos de famílias sunitas de origem indiana. A partir do final dos anos 50, quando estes estudantes se inscreveram nas faculdades de direito, economia e medicina lisboenses, até hoje, quando centenas de bangladeshis se encontram quotidianamente na praça central do Martim Moniz, a população muçulmana em Portugal tem aumentado progressivamente.
A vasta maioria dos cerca de 30-40.000 muçulmanos hoje residentes em Portugal são sunitas que, de algum modo, são parte da Comunidade Islâmica de Lisboa, CIL. Embora a CIL seja uma entidade de referência, actuando como um representante tanto formal quanto informal dos sunitas muçulmanos, a vida da comunidade islâmica em Portugal dificilmente poderá ser entendida como unitária. Devido aos constantes fluxos de migrantes, originários de um número crescente de países e culturas, bem como aos surpreendentes processos de construção e institucionalização comunitária, os muçulmanos em Portugal constituem um fenómeno cada vez mais diverso e dinâmico. Todavia, a integração na sociedade portuguesa, a experiência da migração, a vivência enquanto minoria religiosa (e étnica) numa sociedade europeia e numa comunidade islâmica cultural e etnolinguísticamente diversa, afectam tradições culturais e originam não só auto-percepções fluidas como também novos conceitos de espaço, ‘casa’, e pertença. Tais mudanças e percepções são largamente dependentes do estatuto legal (temporário, residência ou cidadania), do acesso ao sistema educacional e ao mercado de trabalho, e também do capital social. Dependem, em suma, da oportunidade de fazer uso da participação política e da mobilidade social. Pertença à comunidade e participação em associações (quer primariamente islâmicas quer não) parecem desempenhar um papel importante nestes processos, o qual carece de um exame mais aprofundado.”
Para aprofundar este tema, pode ver-se a publicação da mesma autora e de David Cairns, “Little Difference? Young Muslims in the Context of Portuguese Youth“. Sendo de 2006, mantém todavia toda a actualidade e pertinência. A imagem da Mesquita de Lisboa foi retirada do site da Comunidade Islâmica de Lisboa.
Minaretes
“És árabe, és preto, não prestas.”
“Nós temos de andar à guerra porque eu sou cristão e tu és árabe.”
Estas pérolas foram proferidas em duas escolas de Lisboa, em direcção a crianças de 5 e 7 anos, e vêm reproduzidas no Expresso de hoje. Tudo bem que os muçulmanos em Portugal apresentem níveis de integração superiores aos verificados em grande parte dos países europeus. Mas convém ter presente que existem casos de islamofobia aqui.
Realidade e ficção II
As origens do receio israelita relativo a actividade nuclear por parte da Síria remontam ao início do consulado de Bashar al-Assad, presidente sírio desde Julho de 2000. As notícias acerca de reuniões suas com delegações norte-coreanas de alto-nível, no entanto, e de acordo com a história do Der Spiegel, não terão levantado grandes preocupações até 2004, data em que a norte-americana National Security Agency detectou um enorme fluxo de comunicações entre Pyongyang e um ponto localizado no deserto sírio. Uma vez dado o alarme, seria tempo de Telavive actuar.
Aparentemente, Israel terá decidido consultar-se com os seus congéneres britânicos, justamente numa altura em que um oficial do Governo sírio, seguido pela Mossad desde há algum tempo, se alojava em Londres. Um descuido seu permitiu que fosse instalado no seu computador portátil uma aplicação informática que revelou plantas, mapas e sobretudo fotos do complexo de Al-Kibar (o tal ponto no deserto), que revelavam actividades nucleares.
Em 2007, Ali-Reza Asgari, antigo líder da Guarda Revolucionária Iraniana no Líbano, nos anos 80, e ex-Vice Ministro da Defesa Iraniano até 2005, corria risco de vida. Afastado do poder após a eleição de Ahmedinejad, tinha subido a retórica relativamente a alguns apoiantes do novo Presidente iraniano, acusando-os de corrupção, e tentava agora novamente refugiar-se no estrangeiro, após duas tentativas mal sucedidas, em 2006. E estava disposto a colaborar com a CIA e a Mossad. Entre muitas informações preciosas, terá dito que Teerão tinha um plano B: para além das instalações de Natanz, onde estavam a enriquecer urânio com conhecimento dos EUA e de Israel, estavam a financiar a construção de uma instalação na Síria, num projecto realizado em parceria com os norte-coreanos. Era a confirmação que faltava.
(continua)
Realidade e ficção
Em “Mossad: Os Segredos da Espionagem Israelita”, Victor Ostrovsky, ex-oficial do exército israelita e ex-agente da Mossad, conta com detalhes arrepiantes a teia criada pelos serviços secretos israelitas para recolher informações acerca do complexo nuclear iraquiano de Ozirak, perto de Bagdad. O enredo criado levou as investigações até Paris e as informações recolhidas junto de um cientista iraquiano, Butrus Eben Halim, permitiram localizar com total detalhe o complexo, e contribuiram para que a arriscada “Operação Esfinge”, executada em 7 de Junho de 1981, fosse bem sucedida. Aqui, a realidade supera a ficção em detalhe, imaginação e suspense.
Mas também se sabe que esta operação foi apenas uma das muitas acções secretas que Israel leva a cabo para prosseguir os seus objectivos estratégicos. No Expresso desta semana, Henrique Cymerman levanta o véu sobre o ataque israelita a um complexo nuclear sírio em 2007, do qual muito pouco se sabia para lá da especulação. Aparentemente, a instalação síria estava a ser financiada por Teerão para servir de reserva, para que um eventual ataque israelita ou norte-americano não comprometesse os avanços do programa nuclear iraniano.
(continua)
O perfil de Herman Van Rompuy
Mr Van Rompuy, from the centre-right political family, is a trained economist and has been running Belgium for less than a year. He writes Haiku (Japanese verse) and is known for his low-key style, which includes a line in self-deprecatory humour and caravan holidays.
He came to prominence after Germany and France a few weeks ago agreed between themselves to promote him. Several diplomats subsequently suggested that his short term in office stood to his advantage as he has had no time to make enemies among other EU leaders.
The presidency decision – nominating a person from a small country with no international profile – confirms the speculation of recent weeks that the majority of member states wanted to choose a person whose main role will be that of an internal fixer, rather than someone who can open doors in Washington and Moscow.
Mr Van Rompuy underlined his low-key approach by saying he intended to be “discreet” and that his personal opinions were “subordinate” to the council. Ler o resto no EUObserver.
Teresa de Sousa, no Público - (…) Tony Blair, que simbolizava a opção diametralmente oposta, com todos os seus defeitos, foi eliminado pelas suas qualidades. Rompuy, com todas as suas qualidades, foi escolhido graças aos seus defeitos. Não poderia haver uma figura mais apagada e sem história que a sua. O Conselho Europeu terá provavelmente um bom gestor da sua agenda, que se esforçará por gerar consensos. Não terá um político capaz de forçar decisões e apontar uma direcção.
A escolha do novo presidente do Conselho Europeu é o resultado da vontade de Merkel, da rendição de Sarkozy e dos fantasmas de muitos dos outros líderes. A chanceler sempre quis alguém que “se contentasse em organizar as reuniões.” Como sempre, não abriu o jogo até ao fim e acabou por impor a sua vontade. O Presidente francês teve, pelo menos, o mérito de ter defendido uma “figura forte”. Começou por Blair e chegou a propor Felipe González. Pagou o preço da sua recente conversão às virtualidades do eixo Paris-Berlim. Não foi por acaso que ontem o “Monde” escreveu: “A rejeição de Blair sela a unidade franco-alemã”. Contra o Reino Unido?
Bernardo Pires de Lima, no i, há dois dias – “Se a ideia era parar o trânsito sempre que o presidente do Conselho Europeu se deslocasse ao exterior, o nome de Van Rompuy não faz parar um caracol em Nova Deli ou uma bicicleta em Pequim. Se Blair era demasiado pesado – e demasiado atlantista – e Juncker demasiado oferecido, Rompuy é demasiado insignificante para quem sonhou alto com a cadeira deste cargo: à medida de um grande líder europeu.
Só que o Tratado de Lisboa não diz nada disto. Estabelece apenas funções de coordenação e “dinamização” dos trabalhos, nomeadamente com a Presidência da Comissão. Dá-lhe o papel de “facilitador” da coesão e dos consensos e exerce, sem prejuízo para as competências do Alto Representante para as Relações Externas, funções de “representação diplomática”. Por outras palavras, só um perfil político muito forte poderia mascarar a sua limitação executiva. Nesta perspectiva, Rompuy assenta que nem uma luva no lugar.(…)”
O perfil de Cathy Ashton
Swift rise of Lady Ashton
In Brussels, her crowning achievement was the initialling of a free-trade deal with South Korea amid opposition from powerful European carmakers.
“She had been appointed as a peer in 1999 while on a secondment to the home office. It was not until June 2007, when Gordon Brown became prime minister, that she entered the cabinet as leader of the Lords.
This gave her a useful grounding for Brussels where commissioners have to achieve consensus. Labour leaders of the Lords have had to be conciliatory figures because, unlike their Conservative predecessors, they cannot rely on a majority in the upper house to push through legislation.
Her most notable success was in pushing through the ratification of the Lisbon treaty in the face of intense Tory opposition
Ashton has made her mark in Brussels, despite early criticism that she was too junior. The trade job in the European Commission is one of the biggest foreign policy jobs in Brussels and one of the few commission posts where the incumbent negotiates on Europe’s behalf with the rest of the world in trade talks. Ashton has won admiration for her competence, thoroughness, and likability.”
Durão Barroso, à Reuters, sobre o famoso telefone: ”Henry Kissinger, when he made that remark, was secretary of state. What we usually call foreign minister in Europe. So for now there is no doubt — the secretary of state of the United States should call Cathy Ashton because she is our foreign minister,” he said.
He said “the so-called Kissinger issue is now solved.”
Netanyahu e o braço-de-ferro
Muito boa a análise de Alexandre Guerra à questão da construção de 900 novas casas em Jerusalém Oriental. Netenyahu demonstra que, diplomaticamente, irá fazer valer as suas pretensões, independentemente da vontade de Washington; e confirma-se que Obama terá de se empenhar ao mais alto nível para conseguir avançar nas negociações de paz. Como Akiva Eldar escreve hoje no Haaretz, Netanyahu parece pressentir a fraqueza de Obama em questões relacionadas com o processo de paz, e é isso que tem permitido levar tão longe o braço de ferro com Washington. Obama terá de se envolver pessoalmente no processo de paz com uma profundidade superior à demonstrada até agora – só assim voltará a colocar Washington com um ascendente sobre Israel.
As núvens perpétuas do conflito
O Haaretz online noticia hoje que, apesar da objecção dos Estados Unidos, Israel pretende contruir mais 900 casas nos territórias da Cisjordânia. Pode ser interessante que os EUA, agora, se manifestem contra a expansão dos colonatos – mas a verdade é que isso, na prática, ainda não vale de nada.
Por outro lado, a União Europeia veio demarcar-se de apoiar uma declaração unilateral de independência por parte da Autoridade Palestiniana. Carl Bildt, chefe da diplomacia sueca, presidência em exercício da UE, veio dizer que, do ponto de vista diplomático, as atenções da UE estão concentradas no apoio a Washington nas suas tentativas de retomar negociações com ambas as partes. É bom que a UE não repita o erro ocorrido no Kosovo.
Hoje também a UE veio mostrar-se extremamente preocupada com a situação humanitária em Gaza, chamando uma vez mais a atenção para a necessidade de criar condições para a reconstrução de estruturas e para a recuperação económica no território.
Os dias passam, os anos passam, e não se vê uma simples luz ao fundo do túnel.
Foto tirada a uma pintura de parede em Acre.
E há inúmeros exemplos a comprová-lo
Put more simply, where is the doctrine and thinking about state destruction?
Ler o resto em Kings of War, o blog de alunos do War College do King’s College.
No terrorismo, o tamanho conta II
Raphael Cohen-Almagor, da Universidade de Hull, ainda na mesma conferência:
“Se houver um atentado em Israel e morrerem duas pessoas, o Governo pode não reagir e apenas elevar o nível da retórica. Mas se morrerem 20, haverá uma resposta, de certeza absoluta. É a política dos números”.
Size matters.
No terrorismo, o tamanho conta I
Na Conferência referida no post anterior, Ken Booth, da Universidade de Aberystwith, excelente, deixou esta ideia acerca da nova fase no terrorismo internacional, e da importância dos números:
Dizer que é mais provável morrer de acidente de carro do que num atentado terrrorista é estar muito longe de perceber a importância da ameaça terrorista e, portanto, de encontrar uma solução para a combater. Para se perceber a importância deste fenómeno, importa não olhar apenas para as possibilidades matemáticas de se morrer num ataque terrorista, mas sobretudo para a dimensão das reacções subsequentes, o contexto e o significado das mortes. Dizer que morreram “apenas” 3000 pessoas nos atentados de 11 de Setembro é tão desadequado e longe da essência da verdade como dizer que “apenas” morreram 2 pessoas no dia 28 de Junho de 1914. Ainda hoje morrem pessoas, todos os dias, por causa dos atentados de 11 de Setembro.
Tal e qual. Não obstante a quantidade de textos publicados sobre terrorismo, as verdadeiras perguntas continuam ainda longe de ser colocadas. E ainda mais longe de serem respondidas.
“Terror and the Challenges to Nation-State”
Nas próximas quinta e sexta-feiras terá lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas a Conferência Internacional “Terror and the Challenges to Nation-State“. Boa oportunidade para actualizar o estado da arte de estudos sobre terrorismo em Portugal e ouvir especialistas como Ken Booth, Andrew Silke e Liam Harte. Apresentarei as conclusões preliminares de um estudo desenvolvido em co-autoria com Laura Ferreira-Pereira, sob o título “Beyond the Nation State: ESDP and the Fight Against Terrorism“, onde problematizarei acerca da contribuição que a PESD, e nomeadamente as suas missões, têm trazido para a abordagem da UE à luta contra o terrorismo.
Defesa à defesa
Desconheço quaisquer predicados de Augusto Santos Silva em matéria de defesa. Desconheço qualquer visão estratégica ou especial sensibilidade nestes domínios. Reconheço a sua importância na equipa de Sócrates. Conheço os anticorpos que tem em todos os outros partidos, que o impediriam de voltar a ter um papel de “negociador” em nome do Governo, e que limitavam as escolhas de Socrates. Conheço a necessidade do primeiro-ministro de contar com Santos Silva no Governo, desse por onde desse. Foi parar à defesa, como poderia ter ido parar a outro Ministério qualquer da segunda linha.
PS – Gostei de ouvir a TSF preferir a obtenção de reacções à nova equipa do Governo à transmissão do relato do Benfica. Até parecia que estávamos num país normal e tudo.
Reacções ao Nobel obâmico
Boa revista de imprensa e de reacções de Gina Soares, do IEEI, ao Nobel da Paz a Obama. Claro que, para mim, as críticas são muito mais pertinentes e justificadas; as reações positivas que o prémio recebeu são enquadráveis nas lógicas e no alinhamento político de cada um. Cada um reage de acordo com o que pensa acerca de Obama, da sua Administração ou dos EUA, mais do que com o que pensa em relação ao prémio em si. Mas com um Nobel da Paz tão politizado, tudo teria inevitavelmente de ser assim.
ANÁLISE :: Irão nuclear, Israel e os Estados Unidos
Há mais de um ano que a principal linha de actuação da política externa israelita é enfatizar a ameaça nuclear iraniana e, assim, alastrar a percepção da ameaça a outros países, de modo a envolvê-los nessa “sua” luta. Claro que esta luta, em rigor, não é só sua, mas é também claro que em mais lado nenhum do mundo a percepção da ameaça é tão latente. A percepção é maior, mas será a ameaça, em si, também maior?
Ahmedinejad tem feito a sua parte neste processo de crescimento de tensão. As percepções de ameaça são fenómenos sociais muito complexos, e em Israel são extremamente exacerbados – mas com mais justificação do que por vezes se faz crer. Em “1967: Israel, the War and the Year that Transformed the Middle East”, Tom Segev relata de forma impressionante o clima vivido em Israel desde os finais de 1966 até ao início de Junho de 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Era uma atmosfera de medo socialmente transversal, com um crescimento progressivo que fez com que, nos primeiros dias de Junho desse ano, o ataque preventivo israelita fosse já mais provável do que o ataque dos vizinhos árabes. Nestes processos de escalada, uns embarcam, outros não.
Netanyahu tem tentado convencer Obama da ameaça iminente que um Irão nuclear representa. Obama sabe disso, mas as soluções que adopta são diferentes das que Netanyahu deseja. Mas se fosse outro o Presidente americano? Em que ponto da escalada de tensão estaríamos agora, quando o tempo passa e Teerão avança no processo de nuclearização? A avaliação das posturas dos dois líderes vai para além da frase da praxe ”o futuro o dirá” – porque as atitudes de um líder moldam os acontecimentos. Esperemos que Obama esteja certo.
Foto: Haaretz, aquando da visita de Netanyahu à Casa Branca, em Maio passado.
Guia de leitura para as relações transatlânticas
Agora que o Tratado de Lisboa está quase, mas mesmo quase quase, a entrar em vigor, e já que muitas das suas principais inovações se dão ao nível da política externa europeia, o que poderemos esperar das relações transatlânticas? Será que, para variar, a UE irá ter condições para marcar a relação com Washington de acordo com a sua própria agenda? O que poderemos esperar da Administração americana?
Classicamente, o mais eficaz método que permite juízos de prognose bem fundamentados é o conhecimento do passado e o contexto histórico de uma determinada situação. Recentemente, e como tantas vezes acontece, a Foreign Affairs trouxe uma lista de sugestões de leitura para compreender as relações transtlânticas. As sugestões são comentadas e contextualizadas, e por isso permitem que cada um faça as suas escolhas conscientemente. A lista, de Jeffrey Kopstein, da Universidade de Toronto, inclui clássicos como “Political Community and the North Atlantic Area: International Organization in the Light of Historical Experience”, que Karl Deutsch et al publicaram em 1957, até best sellers como Of Paradise and Power: America and Europe in the New World Order, de Robert Kagan ou livros publicados muito recentemente, como The End of the West? Crisis and Change in the Atlantic Order, editado por Jeffrey Anderson, G. John Ikenberry e Thomas Risse.
Finalmente
Foram longos meses à espera que este dia chegasse. Acabaram-se as europeias, as legislativas, as autárquicas, passou o referendo na Irlanda e o Tratado foi desbloqueado; acabou-se os rios de dinheiro gasto com campanhas; acabou-se a inversão de prioridades e concentração de energias no acessório. Já não há desculpas. Vamos trabalhar.
Inacreditável Nobel
É absolutamente inacreditável que Barack Obama tenha ganho o Nobel da Paz. É ridículo que uma simples postura e atitude, que tem uma existência pragmática com 10 meses, receba o mais importante prémio mundial. Faltam muitos anos até que os eventuais resultados desta postura venham a ter a expressão necessária para justificar um Nobel. “Mal vale cair-se em graça em graça do que ser-se engraçado”: a cultura pop chegou à Academia Sueca.
Dizem que Ahmedinejad era judeu
Esta de o Ahmadinejad vir de uma família com antepassados judaicos é hilariante. Aguardam-se desmentidos, mas não há dúvida que tem a sua piada. Diz o Daily Telegraph que esta foto, tirada em Março de 2008 num acto eleitoral, em que o Presidente iraniano mostra o seu documento de identificação, demontra “claramente” que provém de uma família com antepassados judaicos. Nele pode ler-se que o seu apelido era Sabourjian, um nome judeu que significa “tecelão”, apelido este que foi alterado para Ahmedinejad após o seu nascimento, quando a família se converteu ao Islão. Pelos vistos a alteração do nome já tinha sido confirmada pelo próprio, embora sem referir qual o nome original. O apelido Sabourjian consta da lista de nomes reservados aos judeus iranianos pelo Ministério do Interior, e refere-se exclusivamente aos judeus de Aradan, a região de onde o Presidente é originário.
Já se sabe da imaginação prodigiosa de alguns jornais britânicos. Mas sabe-se também que a estupidez humana pode ter as mais inusitadas origens. Enfim.
Foto: Daily Mail
Al-Aqsa
De acordo com a Estratégia Europeia de Segurança, de 2003, a “resolução do conflito israelo-árabe é uma prioridade estratégica para a UE, uma vez que, sem esta, haverá poucas hipóteses de lidar com outros problemas no Médio Oriente” (traduzo do inglês). Convém ter isto em mente quando se avalia a actuação europeia na região. E convém também noção do passado, nomeadamente ter bem presente que a Segunda Intifada, que começou em Setembro de 2000, teve origem na Esplanada das Mesquitas.
Hoje, Javier Solana emitiu a seguinte declaração: I am very concerned about the recent clashes in East Jerusalem. I have been closely following the situation around the Al Aqsa mosque in recent days. I would like to urge all parties to refrain from provocative actions that could further inflame tensions or lead to violence. Everyone must take action to avoid escalation. Our continued priority remains the re-launching credible negotiations in an atmosphere conducive to their success.“ Muito cuidado.
Luta contra o terrorismo na UE
Agora que falta cada vez menos para que o Tratado de Lisboa entre em vigor, faz sentido olhar novamente para o seu conteúdo e perceber o que vai mudar. Nas áreas mais caras a este blog, as alterações serão de monta, reflectindo uma tendência de expansão de competências e de eficiência nos domínios da política externa, de segurança e de defesa.
Analisarei em breve em que medida a entrada em vigor do Tratado de Lisboa afectará a abordagem europeia à luta contra o terrorismo. Nos domínios da segurança e defesa, de forma mais ou menos ambiciosa, esse trabalho já tem sido feito. Mas no domínio da luta contra o terrorismo na UE, muito há ainda a fazer, seja ao nível académico, seja ao nível da prática. Não faltam exemplos paradigmáticos destas lacunas. Deixo um:
Foi apenas após os ataques de 11 de Setembro que os 15 estados membros acordaram os termos do Mandado de Detenção Europeu, um expediente que estava em discussão havia já alguns anos e permitia facilitar a detenção de um determinado suspeito no território da UE. Em Fevereiro de 2005, um relatório da Comissão alertou para o facto de 11 dos então 25 estados membros terem cometido erros na transposição do Mandato de Detenção para as respectivas legislações nacionais. Sendo a Alemanha um destes 11 estados, o Tribunal Constitucional alemão (verdadeiro case study de como pode um tribunal nacional influenciar e condicionar o processo de integração), meses depois, recusou um pedido espanhol de extradição de Mamoun Darkazanli, que havia sido acusado de ser interlocutor e assistente de bin Laden. Essa recusa baseou-se na alegada insuficiência da base legal que possibilitaria a extradição. Um ano depois dos atentados do 11 de Março, esta recusa caiu muito mal e Madrid ameaçou retaliar, alegando que iria libertar cerca de 50 suspeitos que, aos alemães, interessava interrogar.
Ao nível da segurança, cada Estado é um Estado. Cooperação não significa integração nem fusão. Em questões de segurança, cada um quer saber de si em primeiro lugar. O Tratado de Lisboa contribuirá para aproximar legislações e sensibilidades – mas não é um santo milagreiro.
Imagem: Daily Mail
Impressões de um dia normal na Universidade
1- A reunião era para começar ao meio-dia. Começou às 13h.
2- Vi a primeira rapariga de hijab na Universidade do Minho.
3- “Vão para a esquina dar o cu e começam logo a ganhar dinheiro”, gritava a jovem para a turba de caloiros, para toda a gente ouvir.
“1948″
Ainda está quase intacto na minha prateleira, mas Pacheco Pereira já o leu. Reproduzo a sua recensão, publicada no Abrupto. No fim pode comparar-se com o artigo publicado no Guardian e com a recensão – excelente - da New York Review of Books. “Nunca é tarde para aprender”, de facto.
“A criação do estado de Israel é um dos resultados quase únicos no século XX de uma pura vontade política e de um movimento político, o sionismo, assente nessa vontade. Não haveria Israel se dependesse apenas da geopolítica, dos interesses das grandes potências, da realpolitik. Pelo contrário, embora os EUA fossem simpáticos para o novo estado, e a URSS permitisse algum apoio militar chegado na 25ª hora, a criação de Israel num processo duplo de guerra civil (que opunha judeus e palestinianos) seguido de um confronto militar com as potências árabes, em particular o Egipto, a Jordânia, o Líbano, o Iraque e voluntários e apoio saudita e iemenita, dependeu sempre dos judeus e da sua organização para-nacional, o Yishuv, e das suas organizações militares, como o Haganah. Contra tudo e contra todos, em particular contra os britânicos, aliados dos jordanos (a Legião Árabe na Transjordânia era a única força militar capaz que combateu contra o Haganah, dirigida por oficiais britânicos) e dos egípcios, e depois contra a ONU que sempre permitiu aos invasores militares de um estado que nascera sobre a sua égide aquilo que negava aos seus defensores e que várias vezes impediu Israel de obter vitórias significativas sob ameaça de intervenção militar… britânica.
O livro de Benny Morris é um excelente balanço desta guerra fundadora que permitiu a Israel existir, e apresenta o estado da arte na documentação sobre os aspectos do conflito que ainda hoje são controversos como a questão dos refugiados. Morris mostra como a “limpeza” das aldeias árabes dentro do território de Israel não foi deliberada no início e só se tornou inevitável devido a considerações militares, tornando-se depois numa política seguida sempre de forma hesitante, ao contrário do “expulsionismo” árabe que queria deitar os judeus ao mar. Igualmente se analisa o modo como os inimigos de Israel usaram a questão dos refugiados como arma política, recusando qualquer esforço de integração e condenando essas populações a uma situação de miséria em guetos suburbanos nos países limítrofes.
Mostra igualmente que os israelitas e palestinianos (menos os exércitos regulares árabes) cometeram vários massacres, mais os israelitas do que os palestinianos, mas como consequência do facto de as oportunidades serem maiores do lado judaico, devido ao facto de as ocupações de colonatos judeus pelos irregulares palestinianos terem sido escassas. Mostra igualmente como é que se evoluiu de uma guerra sem prisioneiros, (durante os dias finais do mandato britânico não podia haver campos de prisioneiros e as execuções eram comuns) conduzida por milícias, para uma guerra mais convencional em que a Convenção de Genebra passou a ser respeitada.
Morris acentua e bem a parte de jihad no conflito, a total e completa incapacidade do mundo islâmico em aceitar a existência de Israel, assente em considerações religiosas e históricas, que explica as enormes dificuldades que, mesmo os dirigentes árabes mais moderados (como o rei hashemita Abdullah, que acabou por ser assassinado o destino de todos os conciliadores como Sadat), tinham em lidar com a intransigência absoluta face à existência de Israel. A sua análise das duas culturas distintas, a do sionismo, pró-ocidental, com elementos de laicidade, um discurso próximo do socialismo europeu, e a pura incapacidade árabe de aceitar sequer uma negociação (o que comprometeu a posição árabe no plano diplomático face a um estado cuja existência era legal e reconhecida pela ONU), é fundamental para se perceber os dados actuais do conflito que, em muitos aspectos, continuam os de 1948.”
“There was a time when revisionist historian Benny Morris was unemployable because of his supposed pro-Palestinian bias. Now he is a professor at Israel’s Ben-Gurion University, and last year this book won the National Jewish book award. What happened? In part, Morris and other New Historians reshaped Israelis’ understanding of their past. But Morris has changed, too, and today he is a disappointed liberal Zionist. In this impressive military history, written with admirable clarity, he remains sympathetic to the Palestinian Arabs expelled from their homeland, but adopts a harsher tone towards political Islam – what he calls “the jihadi impulse” underlying Arab hostility towards Jews and Zionism, a religious intolerance, signs of which he detects in 1948. The first Arab-Israeli war was not simply a nationalist war over territory but a war of religion, he now claims. Consequently, he is bleak about any possibility of reconciliation for as long as the Arab world remains unstable, oscillating “between culturally self-effacing westernisation and religious fundamentalism”
Yom Kippur em Telavive
É uma sensação muito estranha e agradável passear pelo centro das ruas sem carros de Telavive, com pessoas a conversar nos cruzamentos e toda a gente a pé, de bicicleta, de patins, a preencher o espaço deixado livre de carros e motas. Tudo o que dá vida à cidade está rigorosamente fechado – lojas, cafés, restaurantes. E, nas ruas menos movimentadas, é de facto uma enorme sensação de paz e uma atmosfera única. O Yom Kippur, celebrado hoje, dez dias após o Ano Novo Judaico, é um momento de purificação, seja dos pecados, seja do que se quiser. Os judeus não comem nem bebem, e os mais ortodoxos não escrevem, não acendem luzes, não criam.
Por um lado, estas pausas, profundas quebras na agitação da cidade, mostram-nos que é possível parar por completo. Nem que seja por um dia (há vários dias assim ao longo do ano). E isso ajuda a relativizar muitas das nossas ansiedades, dando-lhes uma diferente espiritualidade. Mas ao mesmo tempo revela uma das muitas contradições de um país que vive sob padrões ocidentais mas onde a religião é transversal à sociedade. Um país onde não é possível apanhar um autocarro durante o sabbath (que vai do pôr-do-sol de sexta feira ao pôr-do-sol de sábado), e que assume como capital uma cidade – Jerusalém – onde metade dos homens que se vê nas ruas são religiosos profissionais, que sustentam as suas famílias com um salário pago pelo Estado para rezar e estudar os textos sagrados.
Israel tem 61 anos e cresceu assim, e por muita estranheza que, por vezes, desperte, irá continuar da mesma forma.
(Imagem: therecord.blogs.com)
“Obama reúne-se em separado com Netanyahu e com Abbas”
Luís Costa Ribas há pouco, na SIC Notícias:
“Obama não pode querer a paz mais do que os israelitas ou os palestinianos, e é isso que está a acontecer“.
Tal e qual. Quer dizer: poder, pode; não adianta é nada.