Santa Casa da Misericórdia de Bruxelas
São estes os custos da global actorness da União Europeia? É assim que se pretende ganhar força diplomática que permita influenciar o desenvolvimento das negociações de paz israelo-palestinianas?
1500
Mais um “afinal”: “Afinal” não eram 500 kg de explosivos, mas antes 1500, para montar uma verdadeira fábrica de explosivos da ETA em Portugal.
Verifica-se que a presença da ETA em Portugal era uma realidade bem consolidada, a caminho de adquirir uma dimensão difícil de calcular. A importância desta descoberta deve aferir-se tendo em conta o que representa agora mas, sobretudo, o que poderá representar para o futuro. E, como tantas vezes acontece, foi um acaso que levou ao desmantelamento deste refúgio etarra – o acaso enquanto forma comum e eficaz de contra-terrorismo.
Agora já não há dúvidas
Após a detenção de um casal de etarras em Trás-os-Montes há umas semanas atrás, a descoberta da casa de Óbidos faz com a presença da ETA em Portugal seja agora uma realidade incontornável. O El País traz mais informação que a maioria dos jornais portugueses, por isso vale a pena ler o artigo “ETA escondia 500 kilos de explosivos en la base descubierta hoy”. Se a cooperação policial entre Portugal e Espanha era já uma realidade, a partir de agora sê-lo-á ainda mais, o momento em que a PJ, pela primeira vez, fala em terrorismo.
A visão negra
Chamo a atenção para um artigo de Charles Grant chamado “Israel’s Dark Vision of the World“, publicado pelo director do Centre for European Reform no blog do Guardian. Já tem dois meses, mas naturalmente mantém a actualidade. Todo ele é interessante, mas aqui reproduzo o trecho relativo à União Europeia e à sua actuação em relação a Israel.
“Could the EU, Israel’s top trading partner, and the biggest provider of aid to the Palestinian Authority, put pressure on Israel? It was planning to offer an “enhanced agreement” that would establish regular EU-Israel summits, and give Israel the right to take part in a range of EU programmes. But earlier this year the EU said it would hold up the agreement until Israel did more to alleviate the plight of Gaza. This conditionality, which annoys Israel’s leaders, might be more effective if the EU increased its offer. Why not tell the Israelis that if they forge a peace deal with the Palestinians, they could join the European Economic Area, giving Israel – like Norway and Iceland – full access to the EU’s single market?
But for now, the Europeans’ divisions over how to handle Israel weaken their credibility as a partner for it. For example earlier this month, when the UN General Assembly debated the Goldstone report – which had accused Israel of war crimes in Gaza – the EU split three ways: the Czech Republic, Germany, Italy and the Netherlands were among those voting with the US to reject the report, Britain and France led a large group of member-states into abstention, and a few others, including Ireland, Portugal and Cyprus, voted for the report.”
Faltam homens no Afeganistão
Um dos principais problemas das missões da UE prende-se com a sua credibilidade. Vários factores confluem para este sentimento, mas um destaque especial merece a circunstância de muitas vezes o staff real da missão ser inferior ao que havia sido determinado no momento em que foi constituída e aprovada pelo Conselho. Por exemplo, a missão EUPOL no Afeganistão, por virtude da qual a UE contribui para a formação dos polícias afegãos, foi estabelecida em Junho de 2007, mas está ainda longe de reunir os 400 efectivos previstos. Os seus comandantes foram ontem ao Parlamento Europeu tentar sensiblizar os eurodeputados a convencer os seus congéneres nos parlamentos nacionais a reforçar o seu contributo. Com o reforço do contingente que chegará por estes dias, esse número chegará aos 310. Isto limita os resultados esperados, naturalmente, mas sobretudo revela uma incoerência difícil de justificar. Podemos andar entretidos com os debate acerca da personalidade da UE enquanto actor internacional, mas a verdade demonstra que estamos ainda muito longe de cumprir integral e cabalmente esse desígnio.
Foto: Conselho da UE. Encontro entre Solana e o Prof Hazrat Sigbhatullah, representante da Câmara Alta do Parlamento afegão.
Para a próxima não se esqueçam de também convidar os outros
Na passada quinta-feira, o Primeiro-Ministro Zapatero encontrou-se com o Primeiro-Ministro palestiniano Salam Fayed e garantiu-lhe que a Espanha, durante a sua presidência (sectorial) semestral da UE, está empenhada em retomar as conversações de paz entre israelitas e palestinianos. O encontro serviu para analisarem em conjunto a situação actual no Médio Oriente, as possibilidades de romper o impasse negocial e as hipóteses de envolver outros actores regionais para promover a paz entre as várias facções palestinianas. Este desígnio do Primeiro-Ministro espanhol foi também declarado no Parlamento Europeu, na véspera, aquando da apresentação das prioridades espanholas para os próximos seis meses.
Como já se sabe, a cada seis meses, cada presidência traz este assunto para o topo das prioridades ao nível do discurso sobre política externa europeia. “De meio em meio ano, a mesma boa vontade“. Mas também se sabe que, à União Europeia, falta muito para conseguir resolver o que que que seja. Ainda assim, com o Tratado de Lisboa existe agora uma diferença, todavia. A existência do cargo exercido por Cathy Ashton pretende justamente harmonizar a política externa europeia, tornando-a menos permeável às flutuações inerentes à rotatividade da condução da política externa europeia. Qualquer sucesso concreto almejado pela UE neste domínio seria um selo de qualidade incontornável do mandato de Cathy Ashton. Para isso, seria importante negociar também com os israelitas. É que sem eles não há sequer uma perspectiva de solução.
Foto: EFE
“We want more for Europe’s foreign minister than you yourself want”
Os relatos acerca da prestação de Cathy Ashton nas audições perante o Parlamento foram assustadores. Não falta quem diga que os piores receios se confirmaram. Já sabe também, no entanto, que em todo o lado há especialistas entrevistadores que julgam saber mais do que o entrevistado. Se a este facto se juntar familias políticas e diferentes nacionalidades, a animosidade pode aumentar e o juízo fica definitivamente enquinado. Não quero defender Cathy Ashton – algo que actualmente parece difícil. Mas não me vou precipitar no julgamento da sua competência.
Uma prova de fogo será dada até ao fim do mês de Março, prazo findo o qual deverá apresentar o organigrama e as regras de funcionamento do serviço de acção externa da UE. Outro marco importante prende-se com o mês de Junho, período até ao qual foram alargadas quase todas as missões da PESD, aguardando decisões de Cathy Ashton. Até aí, teremos de dar o benefício da dúvida. Depois, veremos se a afirmação de uma euro-deputada alemã reproduzida neste título se confirma ou não.
Nota: Ler aqui o relato de Honor Mahony, editora do EUObserver em Bruxelas, acerca das audições de Cathy Ashton.
ANÁLISE :: Iémen, Obama e contraterrorismo
O atentado terrorista falhado do dia de Natal trouxe a questão do terrorismo de novo para a ordem do dia nos Estados Unidos. Apesar de Obama ter assumido pessoalmente a falha do sistema de segurança interna dos EUA, os verdadeiros responsáveis operacionais são outros, e a organização do sistema americano de segurança volta a ser questionada. Há muitas questões que agora se levantam, e destas merecem-me atenção duas, em particular.
A Guerra ao Terrorismo
Ao declarar que a guerra ao terrorismo tinha terminado, Obama deu um sinal politicamente correcto, mas politicamente ineficiente. Se, por um lado, a expressão “guerra contra o terrorismo” é um guarda-chuva que serve para aligeirar muita coisa e para justificar medidas dificilmente justificáveis num cenário de paz, por outro é reveledora de que estes tempos são – ainda - excepcionais; continuam a ser excepcionais. E bastou uma tentativa de atentado para que toda a gente se apercebesse disto. Além disso, os scanner corporais, as dificuldades em voar para os EUA, o permanente reforço de tropas no Afeganistão e as acções no Iémen mostram que, se os EUA não estão em guerra contra o terrorismo, então ninguém sabe o que é uma guerra. Este argumento republicano é verdadeiro. Com Bush, apesar de tudo e de muitos abusos, a retórica era mais clara.
Iémen, statebuilding e contraterrorismo
Não falta quem diga que o Iémen é um Estado falhado. Muitos já o diziam antes do atentado de 25 de Dezembro. Independentemente disso, importa discutir as estratégias de contraterrorismo aplicáveis aos Estados que serviram, mais ou menos conscientemente, de base para actividade terrorista. O que se poderá esperar agora da parte dos EUA? Que resposta haverá? Obama já disse que, de momento, não pretende enviar tropas para o Iémen. Por isso, e sabendo das dificuldades vividas do Afeganistão há mais de oito anos, tem de interrogar-se se o processo de “state building” é a forma mais eficaz de combater o terrorismo. Por muito que custe aos americanos – e aos europeus – não é possível fazer-se “state building” em todos os Estados potencialmente perigosos. O “state building” não é uma forma eficaz de se fazer contraterrorismo, pelo menos do ponto de vista da equação custo/benefício – se não, um terço de África e do Médio Oriente mereceriam intervenção Ocidental. As estratégias contemporâneas de contraterrorismo têm de adaptar-se à realidade actual.
I Congresso Nacional de Segurança e Defesa e ECPR
Para seguir com atenção nos próximos tempos a realização do I Congresso Nacional de Segurança e Defesa, lançado recentemente e organizado pela revista Segurança e Defesa e a Associação para as Comunicações e Electrónica nas Forças Armadas, com o patrocínio do Presidente da República. Mais informações podem ser obtidas no site do Congresso.
Pena é que coincida precisamente nas mesmas datas da Pan-European Conference do European Consortium for Political Research, esta no Porto. Não há muitas oportunidades de ter em Portugal uma conferência internacional de grande nível na área das relações internacionais. Para os investigadores mais atrasados, interessa dizer que o call for papers foi alargado e está aberto até à próxima sexta-feira.
Missões PESD e os contos de fadas
O Núcleo de Investigação em Ciência Política e relações Internacionais (NICPRI) da Universidade do Minho organizou recentemente um ciclo com duas conferências sobre as Missões da PESD, intitulado “As Missões PESD da UE no Mundo: Relatos na Primeira Pessoa”, que contou com a presença de agentes portugueses que participam em missões PESD. Há determinadas questões que não vêm nos livros nem nos artigos científicos, e que só o contacto com a experiência vivida na primeira pessoa pode revelar. E há também outras nuances que a realidade demonstra, e que permitem uma outra visão acerca de determinado objecto de estudo. Exemplos? Saber que, na RD Congo, um país que é do tamanho da Europa Ocidental e que não tem uma rede de estradas que vá para além dos 40 km a partir das maiores cidades, todas as companhias de aviação estão na lista negra da UE; por isso, os participantes nas várias missões da PESD já desenvolvidas neste país, uma vez que têm seguros pagos pela UE, não podem usar as companhias aéreas locais e têm de recorrer à aviação da ONU, também presente em missão no terreno. Saber que, da mesma forma que existem “mercenários de guerra”, também existem “mercenários da paz” – nacionais de determinados estados membros que fazem da paz o seu real ganha-pão, e que estão antes de mais preocupados com as regalias, as férias e os vencimentos. Saber que, à margem das tarefas da missão PESD, muitos integrantes das missões cumprem agendas paralelas de acordo com os interesses dos seus estados membros, reunindo regularmente com os respectivos embaixadores. Ou saber que, muitas vezes, os conflitos entre diferentes instituições da UE bloqueiam as missões, como no caso em que, no decurso de uma missão (estabelecida pelo Conselho) foi necessário proceder à recolha de armas (tarefa atribuída à Comissão), e que, por a missão o ter feito sem autorização prévia da Comissão, esta colocou a missão no Tribunal de Justiça, movendo-lhe um processo. As missões da PESD são assim, e não necessariamente o sucesso inatacável que por vezes parecem ser.
Presidência Espanhola e Luta contra o Terrorismo
De acordo com o El País, Madrid impulsionará a criação de um comité europeu de coordenação anti-terrorista nos primeiros seis meses de 2010, no âmbito da presidência rotativa da UE (o Tratado de Lisboa avançou com o cargo de Presidente do Conselho, mas ao nível sectorial mantém-se o esquema rotativo entre os estados membros). O órgão prevê a reunião semestral dos chefes dos órgãos nacionais, o estabelecimento de uma rede de pontos de contacto que agilize a troca de informação, o intercâmbio bilateral e multilateral de informação com relevância estratégica, a facilitação de reuniões de especialistas para abordar questões específicas e pretende ser um ponto de contacto com o SITCEN (Situation Centre da UE) e com o coordenador europeu da luta contra o terrorismo, cargo desempenhado pelo belga Gilles de Kerchove. É uma medida muito bem-vinda e uma prioridade óbvia para uma Espanha onde o 11 de Março está ainda muito presente. Para além dos espanhóis, outros oito estados membros já prometeram colaboração. Como costuma acontecer nestes domínios, Portugal está incluído, tal como já estava na linha da frente aquando da criação da EUGENDFOR, a Força Europeia de Germanderia, que conta com a participação da GNR desde o seu início, há um ano atrás.
Ainda sobre a EUROGENFOR, e uma vez que se fala sobre terrorismo, refira-se que há menos de um mês (a 8 de Dezembro) iniciou-se a sua colaboração em Cabul com a Missão da NATO. A sua missão é contribuir para o desenvolvimento da Força de Polícia de Afegã, área prioritária quando se trata de state building. Está aqui mais um exemplo concreto do esboroamento das fronteiras entre segurança interna e externa, entre capacidades civis e objectivos militares.
CIA pelos ares no Afeganistão
No decurso de um conflito internacional, para além das baixas dos civis e dos militares, há as mortes dos agentes secretos, dos operacionais das organizações de espionagem que jogam em tabuleiros paralelos, mais longe dos holofotes mas mais perto das decisões. Muitas vezes, é neste jogo que as guerras se ganham ou se perdem. No caso da guerra do Afeganistão, entre Novembro de 2001 e Outubro de 2003, morreram pelo menos quatro agentes da CIA: na perseguição a terroristas, em revoltas de prisioneiros taliban, em exercícios.
Ontem, na base da CIA em Khost, foram oito os norte-americanos mortos por um bombista suicida. O ataque foi reivindicado por um porta-voz dos taliban, que referiu tratar-se de um acto perpetrado por um agente do Exército Nacional Afegão. Duro revés para as forças americanas. Como referiu Bruce Hoffman, “every American death in a theater of war is tragic, but these might be more consequential given these officers’ unique capabilities and attributes.” Pode ser que nunca se venha a saber quais as consequências deste revés, quais as acções abortadas ou definitavemente comprometidas. Ou isso ou esperar por um segundo volume, outras 800 páginas.
Esta casa também
“This house believes that Europeans would be better off with fewer holidays and higher incomes” – Economist, debate acerca da quantidade de férias gozadas pelos europeus. Para ler durante as férias.
Guerras frias
Ainda não há muitos anos (uns seis ou sete) havia nas universidades portuguesas quem ainda falasse em mundo bi-polar, com dois blocos regionais, já bem depois do fim da União Soviética. Sempre houve e sempre haverá quem não consiga acompanhar as mudanças. Mas acho que nem esses resistiriam à notícia de ontem, segundo a qual a NATO pediu à Rússia o envio de apoio aéreo (helicópteros) para o Afeganistão. E, no seguimento do que já havia sido acordado antes, parece que Medvedev aceitou, e que a força da NATO no Afeganistão contará com ajuda de Moscovo. E agora, já parece que a Guerra Fria já acabou mesmo, não? O que é preciso mais?
O verdadeiro perfil de Cathy Ashton
Quando se analisa o percurso de alguém no sentido de encontrar motivos que justifiquem a sua escolha para determinado cargo, as informações disponíveis nem sempre são as mais rigorosas. Ou seja: nem sempre se sabe tudo o que justificou determinada escolha.
Tudo o que escrevi e transcrevi sobre Cathy Ashton é verdade. Mas o que é ainda mais verdade é que Gordon Brown exigiu que o cargo de Alto-Representante para a Política Externa e de Segurança fosse para Londres, como trade-off pelo facto de ter prescindido da realização do referendo no Reino Unido, com todos os custos políticos que tal decisão comporta para um político como Gordon Brown. Este rótulo ficar-lhe-á aposto e permanecerá à disposição das críticas da direita britãnica. Uma vez que tinha de se encontrar uma mulher – já que o Presidente do Conselho era um homem (politicamente correcto oblige) - quem poderia ser? E que tal Cathy Ashton, a grande responsável pelo facto de a Câmara dos Lordes ter viabilizado o Tratado de Lisboa?
“Os senhores vierem até aqui porque nós dissemos que podiam mas agora não vão poder entrar”
Uma delegação de nove eurodeputados (de vários partidos e nacionalidades) que integram a delegação do Parlamento Europeu para as Relações com o Conselho Legislativo Palestiniano foi anteontem proibida de entrar em Gaza pelo governo israelita, umas três horas após este ter-lhes concedido autorização para entrar. Motivo? O de sempre: questões de segurança. Dá-se é a coincidência de neste espaço de três horas, lá longe, em Bruxelas, os Ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27, reunidos em Conselho, terem defendido – uma vez mais – o estabelecimento de um Estado palestiniano nas fronteiras de 1967 e o fim da expansão dos colonatos israelitas na Cisjordânia – incluindo, naturalmente, Jerusalém Oriental (ver aqui as conclusões do Conselho). Imaginar a postura do governo israelita a tomar esta decisão, perfeitamente indiferente aos europeus, tentar visualizar a cena em que um representante do governo israelita vem dizer à delegação que, afinal, vieram de Bruxelas a pensar que iam entrar em Gaza mas já não iam entrar, é um esforço necessário para começar a tentar compreender a psique dos governantes israelitas. É uma cena típica de mais.
Foto retirada de panoramio.com.
Segurança e Defesa no Tratado de Lisboa e Portugal
Entre os vários vectores da nova Política Comum de Segurança e Defesa (não obstante o novo nome, desconfio que “PESD”/”ESDP” irá manter-se…), há um que poderá levantar algumas questões relativas ao papel de Portugal: deverá Portugal integrar uma “Cooperação Estruturada Permanente” no domínio da defesa? Deverá Portugal avançar no pelotão da frente, à imagem do que fez com o Euro e com o Espaço Schengen?
Sim, claro. Portugal integra estas políticas porque só assim consegue manter a sua capacidade de influência, de influenciar e moldar decisões no sentido dos seus interesses e do seu pensamento e objectivos estratégicos. É por isso que Portugal participa nas missões internacionais. É por isso que tenta estar em cargos importantes em Bruxelas. É por isso que tenta exercer as Presidências de forma capaz (já agora: tenta – e consegue).
É que, hoje em dia, é essa a medida do poder de Portugal.
Minaretes II
Costuma dizer-se que em Portugal, país de brandos costumes e de muçulmanos a condizer, os níveis de integração são bastante positivos. Mas, quem são esses muçulmanos? De onde vêm, há quanto tempo tempo cá estão? Como se integram socialmente? Até que ponto a proveniência de muitos destes muçulmanos condiciona – positivamente – a sua integração?
Nina Clara Tiesler, investigadora do Instituto de Ciências Sociais, é a grande especialista neste tema. No descritivo de um dos projectos que coordena neste Instituto da Universidade de Lisboa, intitulado “Jovens Muçulmanos em Portugal. Religião e Cultura, Mobilidade e Cidadania“, traça uma breve caracterização social deste grupo.
“A presença muçulmana no Portugal contemporâneo é um fenómeno pós-colonial. À semelhança de outros antigos impérios europeus, em Portugal, a primeira vaga de imigração muculmana ocorreu antes da descolonização e por própositos educacionais – no nosso caso de Moçambique: estudantes solteiros do sexo masculino oriundos de famílias sunitas de origem indiana. A partir do final dos anos 50, quando estes estudantes se inscreveram nas faculdades de direito, economia e medicina lisboenses, até hoje, quando centenas de bangladeshis se encontram quotidianamente na praça central do Martim Moniz, a população muçulmana em Portugal tem aumentado progressivamente.
A vasta maioria dos cerca de 30-40.000 muçulmanos hoje residentes em Portugal são sunitas que, de algum modo, são parte da Comunidade Islâmica de Lisboa, CIL. Embora a CIL seja uma entidade de referência, actuando como um representante tanto formal quanto informal dos sunitas muçulmanos, a vida da comunidade islâmica em Portugal dificilmente poderá ser entendida como unitária. Devido aos constantes fluxos de migrantes, originários de um número crescente de países e culturas, bem como aos surpreendentes processos de construção e institucionalização comunitária, os muçulmanos em Portugal constituem um fenómeno cada vez mais diverso e dinâmico. Todavia, a integração na sociedade portuguesa, a experiência da migração, a vivência enquanto minoria religiosa (e étnica) numa sociedade europeia e numa comunidade islâmica cultural e etnolinguísticamente diversa, afectam tradições culturais e originam não só auto-percepções fluidas como também novos conceitos de espaço, ‘casa’, e pertença. Tais mudanças e percepções são largamente dependentes do estatuto legal (temporário, residência ou cidadania), do acesso ao sistema educacional e ao mercado de trabalho, e também do capital social. Dependem, em suma, da oportunidade de fazer uso da participação política e da mobilidade social. Pertença à comunidade e participação em associações (quer primariamente islâmicas quer não) parecem desempenhar um papel importante nestes processos, o qual carece de um exame mais aprofundado.”
Para aprofundar este tema, pode ver-se a publicação da mesma autora e de David Cairns, “Little Difference? Young Muslims in the Context of Portuguese Youth“. Sendo de 2006, mantém todavia toda a actualidade e pertinência. A imagem da Mesquita de Lisboa foi retirada do site da Comunidade Islâmica de Lisboa.
Minaretes
“És árabe, és preto, não prestas.”
“Nós temos de andar à guerra porque eu sou cristão e tu és árabe.”
Estas pérolas foram proferidas em duas escolas de Lisboa, em direcção a crianças de 5 e 7 anos, e vêm reproduzidas no Expresso de hoje. Tudo bem que os muçulmanos em Portugal apresentem níveis de integração superiores aos verificados em grande parte dos países europeus. Mas convém ter presente que existem casos de islamofobia aqui.
Realidade e ficção II
As origens do receio israelita relativo a actividade nuclear por parte da Síria remontam ao início do consulado de Bashar al-Assad, presidente sírio desde Julho de 2000. As notícias acerca de reuniões suas com delegações norte-coreanas de alto-nível, no entanto, e de acordo com a história do Der Spiegel, não terão levantado grandes preocupações até 2004, data em que a norte-americana National Security Agency detectou um enorme fluxo de comunicações entre Pyongyang e um ponto localizado no deserto sírio. Uma vez dado o alarme, seria tempo de Telavive actuar.
Aparentemente, Israel terá decidido consultar-se com os seus congéneres britânicos, justamente numa altura em que um oficial do Governo sírio, seguido pela Mossad desde há algum tempo, se alojava em Londres. Um descuido seu permitiu que fosse instalado no seu computador portátil uma aplicação informática que revelou plantas, mapas e sobretudo fotos do complexo de Al-Kibar (o tal ponto no deserto), que revelavam actividades nucleares.
Em 2007, Ali-Reza Asgari, antigo líder da Guarda Revolucionária Iraniana no Líbano, nos anos 80, e ex-Vice Ministro da Defesa Iraniano até 2005, corria risco de vida. Afastado do poder após a eleição de Ahmedinejad, tinha subido a retórica relativamente a alguns apoiantes do novo Presidente iraniano, acusando-os de corrupção, e tentava agora novamente refugiar-se no estrangeiro, após duas tentativas mal sucedidas, em 2006. E estava disposto a colaborar com a CIA e a Mossad. Entre muitas informações preciosas, terá dito que Teerão tinha um plano B: para além das instalações de Natanz, onde estavam a enriquecer urânio com conhecimento dos EUA e de Israel, estavam a financiar a construção de uma instalação na Síria, num projecto realizado em parceria com os norte-coreanos. Era a confirmação que faltava.
(continua)
Realidade e ficção
Em “Mossad: Os Segredos da Espionagem Israelita”, Victor Ostrovsky, ex-oficial do exército israelita e ex-agente da Mossad, conta com detalhes arrepiantes a teia criada pelos serviços secretos israelitas para recolher informações acerca do complexo nuclear iraquiano de Ozirak, perto de Bagdad. O enredo criado levou as investigações até Paris e as informações recolhidas junto de um cientista iraquiano, Butrus Eben Halim, permitiram localizar com total detalhe o complexo, e contribuiram para que a arriscada “Operação Esfinge”, executada em 7 de Junho de 1981, fosse bem sucedida. Aqui, a realidade supera a ficção em detalhe, imaginação e suspense.
Mas também se sabe que esta operação foi apenas uma das muitas acções secretas que Israel leva a cabo para prosseguir os seus objectivos estratégicos. No Expresso desta semana, Henrique Cymerman levanta o véu sobre o ataque israelita a um complexo nuclear sírio em 2007, do qual muito pouco se sabia para lá da especulação. Aparentemente, a instalação síria estava a ser financiada por Teerão para servir de reserva, para que um eventual ataque israelita ou norte-americano não comprometesse os avanços do programa nuclear iraniano.
(continua)
O perfil de Herman Van Rompuy
Mr Van Rompuy, from the centre-right political family, is a trained economist and has been running Belgium for less than a year. He writes Haiku (Japanese verse) and is known for his low-key style, which includes a line in self-deprecatory humour and caravan holidays.
He came to prominence after Germany and France a few weeks ago agreed between themselves to promote him. Several diplomats subsequently suggested that his short term in office stood to his advantage as he has had no time to make enemies among other EU leaders.
The presidency decision – nominating a person from a small country with no international profile – confirms the speculation of recent weeks that the majority of member states wanted to choose a person whose main role will be that of an internal fixer, rather than someone who can open doors in Washington and Moscow.
Mr Van Rompuy underlined his low-key approach by saying he intended to be “discreet” and that his personal opinions were “subordinate” to the council. Ler o resto no EUObserver.
Teresa de Sousa, no Público - (…) Tony Blair, que simbolizava a opção diametralmente oposta, com todos os seus defeitos, foi eliminado pelas suas qualidades. Rompuy, com todas as suas qualidades, foi escolhido graças aos seus defeitos. Não poderia haver uma figura mais apagada e sem história que a sua. O Conselho Europeu terá provavelmente um bom gestor da sua agenda, que se esforçará por gerar consensos. Não terá um político capaz de forçar decisões e apontar uma direcção.
A escolha do novo presidente do Conselho Europeu é o resultado da vontade de Merkel, da rendição de Sarkozy e dos fantasmas de muitos dos outros líderes. A chanceler sempre quis alguém que “se contentasse em organizar as reuniões.” Como sempre, não abriu o jogo até ao fim e acabou por impor a sua vontade. O Presidente francês teve, pelo menos, o mérito de ter defendido uma “figura forte”. Começou por Blair e chegou a propor Felipe González. Pagou o preço da sua recente conversão às virtualidades do eixo Paris-Berlim. Não foi por acaso que ontem o “Monde” escreveu: “A rejeição de Blair sela a unidade franco-alemã”. Contra o Reino Unido?
Bernardo Pires de Lima, no i, há dois dias – “Se a ideia era parar o trânsito sempre que o presidente do Conselho Europeu se deslocasse ao exterior, o nome de Van Rompuy não faz parar um caracol em Nova Deli ou uma bicicleta em Pequim. Se Blair era demasiado pesado – e demasiado atlantista – e Juncker demasiado oferecido, Rompuy é demasiado insignificante para quem sonhou alto com a cadeira deste cargo: à medida de um grande líder europeu.
Só que o Tratado de Lisboa não diz nada disto. Estabelece apenas funções de coordenação e “dinamização” dos trabalhos, nomeadamente com a Presidência da Comissão. Dá-lhe o papel de “facilitador” da coesão e dos consensos e exerce, sem prejuízo para as competências do Alto Representante para as Relações Externas, funções de “representação diplomática”. Por outras palavras, só um perfil político muito forte poderia mascarar a sua limitação executiva. Nesta perspectiva, Rompuy assenta que nem uma luva no lugar.(…)”
O perfil de Cathy Ashton
Swift rise of Lady Ashton
In Brussels, her crowning achievement was the initialling of a free-trade deal with South Korea amid opposition from powerful European carmakers.
“She had been appointed as a peer in 1999 while on a secondment to the home office. It was not until June 2007, when Gordon Brown became prime minister, that she entered the cabinet as leader of the Lords.
This gave her a useful grounding for Brussels where commissioners have to achieve consensus. Labour leaders of the Lords have had to be conciliatory figures because, unlike their Conservative predecessors, they cannot rely on a majority in the upper house to push through legislation.
Her most notable success was in pushing through the ratification of the Lisbon treaty in the face of intense Tory opposition
Ashton has made her mark in Brussels, despite early criticism that she was too junior. The trade job in the European Commission is one of the biggest foreign policy jobs in Brussels and one of the few commission posts where the incumbent negotiates on Europe’s behalf with the rest of the world in trade talks. Ashton has won admiration for her competence, thoroughness, and likability.”
Durão Barroso, à Reuters, sobre o famoso telefone: ”Henry Kissinger, when he made that remark, was secretary of state. What we usually call foreign minister in Europe. So for now there is no doubt — the secretary of state of the United States should call Cathy Ashton because she is our foreign minister,” he said.
He said “the so-called Kissinger issue is now solved.”
Netanyahu e o braço-de-ferro
Muito boa a análise de Alexandre Guerra à questão da construção de 900 novas casas em Jerusalém Oriental. Netenyahu demonstra que, diplomaticamente, irá fazer valer as suas pretensões, independentemente da vontade de Washington; e confirma-se que Obama terá de se empenhar ao mais alto nível para conseguir avançar nas negociações de paz. Como Akiva Eldar escreve hoje no Haaretz, Netanyahu parece pressentir a fraqueza de Obama em questões relacionadas com o processo de paz, e é isso que tem permitido levar tão longe o braço de ferro com Washington. Obama terá de se envolver pessoalmente no processo de paz com uma profundidade superior à demonstrada até agora – só assim voltará a colocar Washington com um ascendente sobre Israel.
As núvens perpétuas do conflito
O Haaretz online noticia hoje que, apesar da objecção dos Estados Unidos, Israel pretende contruir mais 900 casas nos territórias da Cisjordânia. Pode ser interessante que os EUA, agora, se manifestem contra a expansão dos colonatos – mas a verdade é que isso, na prática, ainda não vale de nada.
Por outro lado, a União Europeia veio demarcar-se de apoiar uma declaração unilateral de independência por parte da Autoridade Palestiniana. Carl Bildt, chefe da diplomacia sueca, presidência em exercício da UE, veio dizer que, do ponto de vista diplomático, as atenções da UE estão concentradas no apoio a Washington nas suas tentativas de retomar negociações com ambas as partes. É bom que a UE não repita o erro ocorrido no Kosovo.
Hoje também a UE veio mostrar-se extremamente preocupada com a situação humanitária em Gaza, chamando uma vez mais a atenção para a necessidade de criar condições para a reconstrução de estruturas e para a recuperação económica no território.
Os dias passam, os anos passam, e não se vê uma simples luz ao fundo do túnel.
Foto tirada a uma pintura de parede em Acre.
E há inúmeros exemplos a comprová-lo
Put more simply, where is the doctrine and thinking about state destruction?
Ler o resto em Kings of War, o blog de alunos do War College do King’s College.
No terrorismo, o tamanho conta II
Raphael Cohen-Almagor, da Universidade de Hull, ainda na mesma conferência:
“Se houver um atentado em Israel e morrerem duas pessoas, o Governo pode não reagir e apenas elevar o nível da retórica. Mas se morrerem 20, haverá uma resposta, de certeza absoluta. É a política dos números”.
Size matters.
No terrorismo, o tamanho conta I
Na Conferência referida no post anterior, Ken Booth, da Universidade de Aberystwith, excelente, deixou esta ideia acerca da nova fase no terrorismo internacional, e da importância dos números:
Dizer que é mais provável morrer de acidente de carro do que num atentado terrrorista é estar muito longe de perceber a importância da ameaça terrorista e, portanto, de encontrar uma solução para a combater. Para se perceber a importância deste fenómeno, importa não olhar apenas para as possibilidades matemáticas de se morrer num ataque terrorista, mas sobretudo para a dimensão das reacções subsequentes, o contexto e o significado das mortes. Dizer que morreram “apenas” 3000 pessoas nos atentados de 11 de Setembro é tão desadequado e longe da essência da verdade como dizer que “apenas” morreram 2 pessoas no dia 28 de Junho de 1914. Ainda hoje morrem pessoas, todos os dias, por causa dos atentados de 11 de Setembro.
Tal e qual. Não obstante a quantidade de textos publicados sobre terrorismo, as verdadeiras perguntas continuam ainda longe de ser colocadas. E ainda mais longe de serem respondidas.
“Terror and the Challenges to Nation-State”
Nas próximas quinta e sexta-feiras terá lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas a Conferência Internacional “Terror and the Challenges to Nation-State“. Boa oportunidade para actualizar o estado da arte de estudos sobre terrorismo em Portugal e ouvir especialistas como Ken Booth, Andrew Silke e Liam Harte. Apresentarei as conclusões preliminares de um estudo desenvolvido em co-autoria com Laura Ferreira-Pereira, sob o título “Beyond the Nation State: ESDP and the Fight Against Terrorism“, onde problematizarei acerca da contribuição que a PESD, e nomeadamente as suas missões, têm trazido para a abordagem da UE à luta contra o terrorismo.