Tratados

ANÁLISE :: De AfPak a PakAf

 Pakistan taliban May 2009

Num relatório de Abril publicado pelo Council on Foreign Relations, Daniel Markey sugere que a estratégia norte-americana para a Ásia do Sul deixe de ser designada pelo petit-nom de AfPak, e passe a assumir-se como PakAf. A lógica da proposta é óbvia: desde há vários meses, o Paquistão tem vindo a substituir o Afeganistão no topo da lista de preocupações dos norte-americanos relativas àquela região. Todo o contexto político, geográfico, militar e governativo apontam para um cenário que põe em causa, de forma inquestionável e incomparável, o sistema de segurança internacional.

Este quadro geral é traçado igualmente num artigo de Ahmed Rashid a publicar no próximo número da New York Review of Books, que será editado na versão de papel apenas no dia 11 de Junho, mas que já se encontra disponível online desde a semana passada. Em “Pakistan on the Brink“, o autor de “Os Talibãs” (2000) e de “Descent into Chaos: How  the War Against Islamic Extremism is being lost in Pakistan, Afghanistan and Central Asia” (2009) descreve sumariamente o mosaico da instabilidade paquistanesa referindo as cumplicidades entre as forças militares e os serviços secretos (Inter-Services Intelligence Directorate), por um lado, e os taliban, por outro; a incapacidade de decisão, o isolamento e falta de autoridade do presidente Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto; a emergência de novos grupos terroristas com agendas políticas tão diversas como o apoio à al-Qaeda e/ou aos taliban, a luta contra a India ou reforço do nacionalismo pashtun, entre muitos outros; e o avanço dos taliban, que actualmente controlam ou reclamam controlo de 11% do território. Após se instalarem em Quetta em 2007, assumindo-a como a sua nova capital, os taliban têm avançado ao longo da fronteira com o Afeganistão para  Norte e para o interior, estando actualmente a poucas dezenas de kms da capital Islamabad. O mapa reproduzido acima, retirado de uma notícia do BBC World Service de 13 de Maio, aponta para uma presença crescente dos taliban no norte do país, uma zona onde, de acordo com os dados recolhidos pelos correspondentes da BBC e detalhados na notícia, o Governo central apenas detém controlo sobre 38% do território.

Há duas ideias que devem ainda ser deixadas: em primeiro lugar, apesar do sucesso da ofensiva, existem várias divergências entre os taliban e outros grupos que têm participado nas acções e entre as diferentes facções dentro dos próprios taliban – o que poderá  dificultar ainda mais uma resposta eficaz da parte do governo paquistanês e de, eventualmente, forças internacionais, numa fase talvez não muito distante.

pakistan-map-airbase

Em segundo lugar, e como Hillary Clinton assinalou em 23 de Abril, a presença dos taliban no Paquistão representa “uma ameaça mortal para o mundo”, porque nunca antes um grupo terrorista esteve tão perto de aceder a arsenais nucleares. De acordo ainda com o artigo citado de Ahmed Rashid, o Paquistão terá entre 60 e 100 armas nucleares, a maioria das quais se encontra na parte ocidental da província de Punjab, onde os taliban têm feito algumas incursões recentemente. O segundo mapa reproduzido ilustra a importância estratégica desta província, assinalando a presença, aqui, da maioria das bases aéras paquistanesas. As próximas semanas e os próximos meses mostrarão certamente um aumento da violência e uma intensificação das ofensivas de ambas as partes – mais do que isto, neste cenário tão complexo e volátil, é difícil de prever.

 

 

Junho 2, 2009 - Posted by | Sem categorias | , , , , ,

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