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ANÁLISE: UE e a coerência externa

Nas discussões académicas acerca da União Europeia, há vários mitos, vários mantras que se repetem permanentemente. À vezes parece que, se não forem ditos, uma apresentação não fica completa. É como o som perpétuo que se escuta no som de uma gaita de foles por baixo da melodia, aquele bordão permanente – e irritante.

Um desses mantras é a falta de coerência da UE na sua acção externa. A UE não é coerente, não fala com uma só voz, é irrelevante, Kissinger não tem quem lhe atenda o telefone, etc. E, por muito que se possa clamar por coerência, e por muito que se possa ambicionar obter essa coerência (esse é um dos oblectivos explícitos do Tratado de Lisboa), essa discussão está mal orientada, porque é demasiado exigente para UE – e este é um nível de exigência que não olha para outros exemplos (ou olha para os exemplos errados) nem considera a especificidade da UE.

Este argumento que aqui contesto (“a UE não é coerente na sua acção externa”) não olha para as incoerências que existem nos Estados. Os Estados (não me refiro aos Estados membros da UE, mas aos Estados em geral) nem sempre são coerentes na sua acção externa; as suas políticas alteram-se por uma série de motivos – incluindo eleições. Alguém diz que a Espanha é incoerente na sua acção externa, por ter tido uma política externa com Aznar e uma outra, do dia para a noite, com Zapatero? A coerência não é o mais importante valor na política externa de um país.

Além disso, se as incoerências são “normais” em Estados nacionais, são-no ainda mais à medida que a complexidade  da sua forma política aumenta. As dificuldades em manter coerência são maiores nas Confederações, e são-no ainda mais nos Estados Federais, como nos EUA ou na Alemanha. Quando se analisa a política destes últimos, ninguém fala em coerência. Ninguém disse que os EUA são incoerentes porque tinham uma determinada orientação polítca com Bush e agora têm outra com Obama. Portanto, com a UE, não devemos ser demasiado exigentes – não por condescendência, mas sim por realismo.

Junho 28, 2010 - Posted by | Sem categorias

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