Tratados

Por que não sou contra o centro cultural islâmico em Manhattan

Se estivesse em posição de ter de tomar decisões, não tomaria a iniciativa de propor a construção de um centro cultural islâmico perto do local dos atentados de 2001. Saberia que estaria a ferir algumas sensibilidades entre o grupo de vítimas e familiares de vítimas dos ataques, estaria a dar argumentos a quem não pensa da mesma forma que eu, e teria poucos ganhos. Por isso não me lembraria de propor tal iniciativa.

Se, no entanto, a proposta me chegasse às mãos, e exigisse uma tomada de posição, não me oporia. Porque é nas situações-limite, quando surgem os desafios, que a verdadeira força das convicções e dos valores se deve afirmar. Poderia sempre dizer-se que não se trata de uma mesquita, que não é no ground zero, que esta é uma “não-questão”. Mas isso, respectivamente, não seria nem rigoroso nem verdade. Seria uma forma de, politica e levianamente, tentar escapar entre os pingos da chuva sem se molhar, sem se pronunciar sobre o que está em causa. E, para mim, a questão que está em causa verdadeiramente – a construção de um local afecto ao islão perto da zona dos atentados de 2001 – trata-se em torno de duas ideias principais:

– os atentados terroristas – estes e outros – foram (e são) praticados por uma escandalosa minoria dos muçulmanos. Também por isso, não devem pôr em causa o princípio da liberdade religiosa, da liberdade de culto e o respeito pelas liberdades fundamentais. Do ponto de vista retórico, os ataques são feitos “em nome do islão”, mas não em nome do islão maioritário. Muitos dos principais problemas associados ao islão são, no mínimo, passíveis de muita discussão e não são praticados pela maioria (ou sequer por uma minoria significativa) dos muçulmanos. Quantas pessoas estão sob a sharia? Qual é a percentagem de muçulmanas que usa burqa ou véu integral? Os terroristas – estes terroristas – são muçulmanos, mas não são terroristas por serem muçulmanos.

– O argumento mais forte para sustentar esta posição é a quantidade de muçulmanos mortos em sequência de ataques terroristas praticados por outros muçulmanos. Se o seu problema fosse “só” os Estados Unidos, Israel ou o modo de vida ocidental, não morriam centenas de muçulmanos todos os meses no Iraque e no Afeganistão. A sua agenda é política, não religiosa. Não ignoro que, retoricamente, o uso da alavanca do islão é mobilizador nos processos de recrutamento de activistas; não ignoro que a justificação dos actos com recurso ao islão aumenta a base de apoio dos ataques. Mas a verdade é que a agenda dos terroristas é eminentemente política. Mesmo o desejo de reinstaurar uma espécie de “califado” no mundo ocidental é um desejo político. E, por isso, é nessa esfera que o fundo problema deve ser tratado. É isso que a racionalidade requer.

Obama: “We are not at war with Islam, but with terrorists that have distorted Islam”

Setembro 11, 2010 - Posted by | Sem categorias | , ,

1 Comentário »

  1. Faço minhas as tuas palavras! Até acho que vou copiar o que escreves e dizer que sou eu que digo😀
    Acima de tudo é um problema politico, não acho que seja de consciência! Estão a tentar utilizar este assunto para atacar o presidente (que cada vez está a cair mais nas sondagens!).

    Comentar por Paulo Simoes | Setembro 12, 2010 | Responder


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