Tratados

NATO-Lisbon :: Sem surpresas “à Bucareste” (autores convidados)

Alena Vysotskaya Guedes Vieira recentra o debate em torno da questão russa que domina este período pré-Cimeira. Neste texto são expostos alguns dos argumentos tanto da visão optimista desta cooperação como daqueles que mantêm reservas acerca da sua vertente operacional. Alena Vysotskaya Guedes Vieira é Investigadora Pós-Doutoramento na Universidade do Minho, apoiada pela Fundação Ciência e Tecnologia. É doutorada em Relações Internacionais pela Universidade de Erlangen-Nuremberga, Alemanha. Os seus interesses de investigação incluem o espaço pós-Soviético, integração Europeia, Política Europeia de Vizinhança, Política Externa e de Segurança Comum da UE, processos de democratização e relações entre a Rússia e a NATO. É autora do livro A UE, Rússia e Bielorrússia, Ibidem-Verlag, 2008.

 

A Cimeira de Lisboa: sem surpresas “à Bucareste”

Ao que tudo indica, a cooperação com a Rússia encontra-se entre as prioridades da Cimeira de Lisboa. A visita de Anders Fogh Rasmussen a Moscovo no início do mês levou ambas as partes a declarar uma partilha de preocupações de segurança em vários temas, o que lhes permite atingir resultados tangíveis – já em Novembro. Entre as áreas de cooperação referidas estão o combate à pirataria e ao tráfico de droga; o Afeganistão, incluíndo o chamado “pacote helicópteros” (participação da Russia num concurso americano para o fornecimento de helicópteros no Afeganistão) e a questão do trânsito de retorno (via de comunicação terrestre que parte do Afeganistão e passa pela Rússia);  e, ainda mais importante, a cooperação no âmbito do sistema anti-míssil (contando que as partem acordem em consider o Irão uma ameaça comum).

É suposto que a Cimeira de Lisboa constitua um novo arranque da relação entre a Rússia e a NATO. De acordo com a justificação oficial, este esforço diplomático prende-se com a vontade de superar o Síndroma da Guerra Fria, que tanto Moscovo como a Aliança parecem preparadas a combater. Aparentemente, parece poder dizer-se que NATO e Rússia têm visões complementares: por uma lado, o papel da Rússia enquanto um dos mais importantes parceiros da Aliança é decisivo para a confirmação das aspirações globais da NATO – um dos pilares do novo Conceito Estratégico; por outro lado, esta aproximação à NATO é entendida igualmente como uma oportunidade para promover a proposta de Medvedev de um tratado de segurança, e isto faz com que o entendimento com a Aliança seja bem recebido em Moscovo.

Entre as diversas análises de especialistas, analistas e políticos a esta convergência entre NATO e Rússia destacam-se duas observações comuns: desde logo, uma globalmente positiva, que alarga este impulso diplomático e discute a possibilidade de integração da Rússia na NATO (entre os que defendem esta orientação inclui-se, em Portugal, João Soares); em sentido inverso encontram-se as posições críticas, que levantam dúvidas acerca do lado operacional desta cooperação reforçada (“uma subordinação de parte do exército russo ao comando na NATO?”). Sobre a posição do primeiro grupo, a adesão à NATO não parece constituir uma prioridade estratégica da liderança russa, da mesma forma que não aparenta ser uma prioridade para a NATO. Quanto às dúvidas acerca da vertente opracional deste acordo, alguns especialistas militares têm relembrado o precedente que constitui a participação da Rússia em missões de manutenção de paz sob comando da NATO, nomeadamente na Bósnia-Herzegovina.

O que é mais assinável neste novo carácter das relações entre a NATO e a Rússia é o contraste que apresenta em relação ao impasse surgido em consequência da guerra entre a Rússia e a Geórgia em 2008. Os contactos políticos foram retomados em meados de 2009, e a primeira reunião ao nível militar deu-se apenas em Janeiro de 2010. Neste sentido, a agenda da Cimeira de Lisboa é assinalável não apenas pelo que inclui mas também por aquilo que explicitamente exclui das conversações com Moscovo, nomeadamente questões sensíveis como o Membership Action Plan da Geórgia. Esta circunstância torna a Cimeira ainda mais particular, desta feita no que diz respeito à questão das divisões no seio da Aliança. O maior problema é que, após a guerra na Geórgia, pode ser mais difícil convencer os novos membros de que a aliança com a Rússia não representa nenhum tipo de ameaça. Neste sentido, a Cimeira de Lisboa configura um teste à capacidade de unidade interna no pós-Geórgia no que respeita à determinação de um novo e ambicioso formato para a extensão das relações com a Rússia.

Alena Vysotskaya Guedes Vieira – vysotskayaa@gmail.com

 

Novembro 12, 2010 - Posted by | Sem categorias |

Ainda sem comentários.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: