Tratados

Crise, pobreza de espírito

Na noite de 31 de Dezembro de 2010, os telejornais regozijavam. Está quase a chegar o ano em que o pão finalmente vai ficar mais caro; os combustíveis vão subir; os representados de Bettencourt Picanço vão sofrer cortes nos salários. Crise, crise, crise, como tanto se deseja. Por estes dias de crise, quase todos somos abutres de nós próprios e do nosso fado. Na noite de 31 de Dezembro de 2010, os telejornais davam reportagens de portugueses que passavam 40 minutos em filas para abastecer os carros, poupando assim um euro – euro esse provavelmente consumido no pára-e-arranca propiciado pelos 40 minutos numa fila de automóveis. A pobreza é uma situação económica e social, mas é também um estado de espírito. Não contem comigo para psicanalisar estes portugueses e explicar-lhes que há formas melhores de passar 40 minutos.

Nos países nórdicos existe uma norma social de acordo com a qual as pessoas não devem ostentar a sua riqueza. Subscrevendo, adapto e digo que, igualmente, uma pessoa não deve ostentar a sua pobreza – principalmente se for pobreza de espírito, aquela pobreza de espírito que a leva a falar de crise por tudo e por nada. Há aquelas pessoas que não gostam de falar sobre determinados temas. Sexo, por exemplo. Só de ouvir falar em sexo, há pessoas que fecham os ouvidos, desligam, mudam de assunto, ficam incomodadas. Comigo, passa-se o mesmo com dinheiro, finanças pessoais, poupanças, etc. Não quero saber. E não acho necessário que, quando se fala de festas de revéillon, se fale em crise; não me parece fundamental que, quando se olha para a capa de um ex-jornal de referência, se veja escrito, na primeira página do Público, de cima a baixo, com fotografia e em manchete, a bomba: “Como dizer aos seus filhos que perdeu o emprego”. Em Portugal já não há jornais de referência, em Portugal já quase não há referências ou possibilidade de conhecer aquelas que deveriam ser as referências. Só há pobreza de espírito. 

Janeiro 5, 2011 - Posted by | Sem categorias

8 comentários »

  1. Gostei muito do texto! Realmente na seia revéillon a unica crise de que falamos foi a do Sporting😀
    Agora a sério, concordo plenamente com o teu texto, e contra mim falo que muitas vezes falo de crise! Acho que temos de começar a olhar para aquilo que há de positivo na nossa vida, e existem tantas coisas! Acima de tudo o Portugês tem de mudar de hábitos, e isso não siginifica que seja mau! Por exemplo, começar a andar mais de transportes publicos do que carro pessoal pode ser algo muito bom, pode provocar um aumento da qualidade de vida de cada um de nós!

    Comentar por Paulo Simões | Janeiro 5, 2011 | Responder

    • “Acho que temos de começar a olhar para aquilo que há de positivo na nossa vida, e existem tantas coisas!”

      É o que eu acho. Não defendo que nos alienemos totalmente da realidade. Agora, aquilo que nos mostram todos os dias a todas as horas não é a totalidade da realidade. É isso que defendo, e por isso é que prefiro nem ligar nos telejornais. O meu Portugal não é o mesmo do deles.

      Comentar por Bruno Oliveira Martins | Janeiro 5, 2011 | Responder

    • Queres dizer “ceia”?😉 E já agora que falamos de crise: conheces a história do símbolo chinês para crise ser o mesmo que para oportunidade? E já agora, como é que andar de transporte pública aumenta a qualidade de vida de cada um de nós? As mudanças que são significativas para a sociedade podem ter que obrigar a que a “qualidade de vida de cada um de nós” decresça. Ora, na conjectura cultural vigente, o conceito não é sequer compreensível pela maioria das pessoas.

      Comentar por Sérgio Loureiro | Janeiro 5, 2011 | Responder

  2. Duas coisas muito bem apanhadas no teu texto: 1) a “pobreza de espírito”, que se liga rapidamente com a exibição de “sinais exteriores de riqueza” (em POrtugal a moda dos carros e dos relógios, p. ex., quanto mais vistosos melhor)
    2) a maior parte das decisões são “não económicas”: encher o depósito para poupar 1 euro antes de 1 de Janeiro não é uma decisão económica, é uma decisão emocional.
    A pergunta que me parece pertinente neste momento é esta: como é que se mudam estas vertentes culturais? Isto, claro, partindo do princípio q

    Comentar por Sérgio Loureiro | Janeiro 5, 2011 | Responder

    • Sérgio, sobre os sinais exteriores de riqueza – e a hierarquia das prioridades – posso referir algo que tu também conheces: o parque automóvel na Suécia ou, sobretudo, na Dinamarca, é incomparavelmente mais fraco do que em Portugal. Para mudar mentalidades é preciso empreendedorismo social e políticas assentes em princípios compatíveis com estas ideias que partilhamos.

      Comentar por Bruno Oliveira Martins | Janeiro 5, 2011 | Responder

  3. …que se quer que mudem.

    Comentar por Sérgio Loureiro | Janeiro 5, 2011 | Responder

  4. Sérgio! Desculpa o erro, tens razão é ceia!
    Quando eu disse transportes publicos pensava no Metro, nesse sentido, se viveres em Gaia e fores para o Centro do Porto de Metro, para além de poupares, ganhas anos de vida em fugir do transito! Acredita que se eu tivesse metro até ao meu local de trabalho, viria de Metro. Infelizmente o Metro fica a mais de 1 Km, e não tenho balneários para tomar banho, porque se não aquilo que fazia era vir de bicicleta-metro-bicicleta! Para além de poupar na gasolina (no meu caso nem se aplicaria porque a empresa é que paga!), fazia exercicio, ou seja, aumentava a minha qualidade de vida!

    Comentar por Paulo Simões | Janeiro 5, 2011 | Responder

  5. Grande texto, amigo Bruno! Nem parecia teu😉
    Mais a sério, e creio já nos termos debruçado sobre este tema numa das nossas reuniões em Bruxelas, o problema que assola Portugal é, acima de tudo, cultural. E começa no topo – nas áreas de Senior Management e na Política pelo exemplo que estas, muitas vezes, dão à restante sociedade. Desde exemplos de “jobs for the boys” recorrentes, à aquisição de nova frota automóvel para o Parlamento porque “sim” enquanto se pedem sacríficios à restante população. Este esvaziamento do sentimento de unidade agrava o fosso e é a principal razão de estrangulamento da classe média. Porquê? Porque seria precisamente nessa classe média que se encontraria massa crítica para desenvolver projectos empreendedores que conduzissem à criação de emprego e, espero eu, a uma cultura meritocrática que não existe em Portugal. Seria um trabalho fastidioso e geracional que traria frutos porventura a 40 anos com alterações profundas da cultura portuguesa. A promoção da cultura existente é igualmente patrocinada pela Comunicação Social que abdicou do seu papel de educar, ao passar apenas a informar, muitas vezes de forma errónea ou viciada. Seria a essa CS que caberia um papel importante, aliado a todo o sector da Educação, de educar a população, de não deixar que as nuvens negras assolem constantemente as pessoas, de promover planos de incentivo e noticiar empresas de sucesso criadas por portugueses no nosso país como exemplos a seguir e a prova cabal de que é possivel empreender e inovar em português, ou até mesmo de passar a mensagem que afinal, “Crise é oportunidade”, tal como creio que o Sérgio diz acima. Frase com a qual concordo em absoluto, como bem sabes.

    Um abraço

    Comentar por Pedro Faleiro Silva | Janeiro 13, 2011 | Responder


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