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A/C cientistas sociais

“As estatísticas são como bikinis num corpo humano: permitem ver bastante, de facto, mas não mostram o mais importante”.

(filósofo anónimo do século XXI)

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Maio 30, 2011 Posted by | Sem categoria | | 2 comentários

Guantánamo e a simbologia contra-terrorista: uma resposta

Num comentário via facebook relativo ao post de ontem, Sérgio Loureiro afirmou o seguinte:

 “Eu percebo a posição de princípio. Mas no mundo da política real, existem factos. E enquanto Guantanamo estiver aberto, certas coisas que lá se passaram (e outras) podem continuar escondidas. No momento em que se fechar Guantanamo, passa a existir uma luz legal em cima dessas zonas de sombra. A realidade política americana não está preparada para lidar com isto. Senão repara: Obama vai ter que explicar porque Guantanamo continua aberto, depois de ter prometido que fechava no espaço de um ano. Se ele está disposto a pagar o preço político de ter esta promessa não cumprida, é porque o preço político de cumprir a promessa é mais alto (e não deve ser pouco). Também não concordo com o teu preceito de que a “paz das nações” não se coaduna com os Jack Bauers. De facto, parece-me que Obama usa muito bem o proverbial “talk softly and carry a big stick”. É por ele demonstrar que não hesita em usar a realpolitik que se pode permitir matar piratas somalis, usar drones no Paquistão, fazer de Jack Bauer com o OBL, manter Guantanamo aberto, e dizer ao Bibi que a solução para a paz na Palestina passa pelas fronteiras de 67. Garanto que a análise custo-benefício destas coisas está feita e bem feita”.

Transcrevi o comentário porque este traz ideias interessantes que estimulam o debate e apontam novas direcções para a análise da questão de Guantánamo. Neste sentido, acrescento algumas ideias, dividadas por tópicos:

1 – A existência de um local como Guantánamo – A luta contra o terrorismo é vista como um combate que, por vezes, requer medidas excepcionais, pelo facto de o objecto a combater usar estratégias e instrumentos pouco susceptíveis de serem eficazmente combatidos com os meios habituais. Eu reconheço isso, e quem estuda contraterrorismo sabe que é assim. Neste sentido, poder-se-ia chegar mais longe, dizendo que saber-se da existência de um local como Guantánamo é positivo, se se considerar que locais “acima da lei” existirão sempre e, apesar de tudo, sabe-se mais sobre Guantánamo do que sobre outros locais que nem se sabe se existem – mas que existem.

2 – Excepcionalidade – O problema com Guantánamo e com os desenvolvimentos a que tem sido sujeito está no factor “excepção”. Em muitos casos (quase todos?), podem não existir razões suficientes que justifiquem a manutenção dos prisioneiros em condições tão excepcionais. Para muitos analistas, Guantánamo não deveria sequer existir; mas mesmo quem defende a sua existência costuma reconhecer a insuficiência das provas que retêm muitos dos prisioneiros neste centro. A excepcionalidade que poderia justificar Guntánamo (aos olhos de alguns analistas) não se alarga a todos os prisioneiros, e as perspectivas actuais, baseadas em legislação que congressistas e senadores estão a tentar aprovar, apontam para uma “normalização da excepcionalidade”: os critérios para justificar a excepcionalidade serão menos apertados.

O texto anterior tem, portanto, duas ideias de partida:

  • A promessa de Obama de fechar Guantánamo não se cumpriu
  • A promessa de Obama de fechar Guantánamo parece estar mais longe de se cumprir

3 – “Talk softly and carry a big stick” – Sim, Obama desilude os seus apoiantes mais pacifistas. E ainda bem. Desgraçado o mundo em que os pacifistas fanáticos prevaleçam. Mas julgo que a retórica e a simbologia do pós 11 de Setembro têm de ser ultrapassadas, e não o serão enquanto um lugar como Guantánamo estiver a funcionar a todo o gás. Além disso, como referi ontem, isso poderia ser mais eficaz no longo prazo.

4 – E a UE? – A política contra-terrorista da UE consubstancia-se num conjunto de instrumentos que visam reforçar a cooperação policial e judicial entre os Estados membros e num conjunto de acções ao nível da política externa. Toda a actuação europeia privilegia a dimensão legal deste combate em detrimento da dimensão militar, com o objectivo de desglamourizar o terrorismo islâmico. O Coordenador da Luta Anti-Terrorista na UE afirma que os prisioneiros de Guantánamo fazem parte do discurso dos terroristas, enquanto que dos condenados pelos atentados de Madrid ninguém ouve falar. E isso é verdade. Mas esta retórica desmonta-se quando confrontada com situações-limite. Exemplos? A UE advoga o fecho de Guantánamo, mas depois muito poucos países europeus estão dispostos a acolher antigos prisioneiros (Portugal é uma excepção a esta tendência, uma vez que alberga dois sírios que estiveram naquela base). E a UE advoga o primado da lei e do direito, enquanto dá os parabéns a Obama pelo “huge sucess” que foi a morte de Bin Laden.

Maio 26, 2011 Posted by | Sem categoria | , , , , | 2 comentários

ANÁLISE :: Guantánamo e a simbologia contra-terrorista

Getliberty.org

Para além de benefícios políticos evidentes, a Administração Obama deveria aproveitar a morte de Bin Laden para retirar dividendos estratégicos de longo prazo, no que à segurança diz respeito. Para os americanos, a morte de Bin Laden foi um sucesso político e militar com implicações ao nível simbólico e operacional. Mas, para que estas implicações (em ambos os planos) fossem efectivamente optimizadas, o passo seguinte teria de ser dado. E esse passo seria fechar Guantánamo.

As perspectivas relativas a este desfecho não são optimistas. Guantánamo tem sido uma pedra no sapato de Obama, uma pedra que dificulta a sua caminhada em direcção a uma das suas principais promessas. Fechar Guantánamo está cada vez mais longe, à medida que senadores como John McCain e Lindsay Graham e o congressista Buck McKeon vão propondo legislação que torna a excepcionalidade de Guantánamo menos excepcional, alargando os casos em que a detenção sem julgamento é permitida e afrouxando o freio que separa a regra da excepção. Se Bin Laden é o símbolo do terrorismo islamista do século XXI, Guantánamo é o símbolo nefasto do contra-terrorismo americano pós 11 de Setembro. Se acabar com um símbolo comportasse acabar com outro, poderíamos começar a pensar em passar para um nova fase. Assim, não.  

Maio 25, 2011 Posted by | Sem categoria | , , , | 1 Comentário

Morte de Bin Laden (II)

Uma das questões mais discutidas pelos analistas (e por qualquer um com uma conta de facebook ou um blog) prende-se com as implicações que esta morte terá na actividade terrorista. Estaremos mais seguros? Is the world a better place? Estará a al Qaeda decapitada? Isto é o fim do terrorismo (esta é a minha preferida)?

Na história do terrorismo e da violência política há exemplos para as duas tendências opostas que advêm da morte de um líder: (i) redução da actividade do grupo ou (ii) aumento da actividade, resultado do desejo de vingança e da radicalização de militantes que se encontravam num patamar inferior ao estado que leva alguém a cometer atentados terroristas. Julgo que este segundo cenário é bastante mais provável, ainda que a al Qaeda tenha vindo a ser progressivamente encurralada pela acção dos Estados Unidos no Paquistão e no Afeganistão. Aquele aumento, a concretizar-se, viria sobretudo de grupos ideologicamente afiliados e sobre os quais a figura de Bin Laden exercia uma força simbólica e encorajadora. A forma de actuação que inaugurou com o ataque ao USS Cole e às Embaixados dos EUA no Quénia e na Tanzânia, em finais dos anos 90, marcou um nova fase no terrorismo internacional de vocação islâmica e claramente abriu as portas a um conjunto de actos que se verificaram, sobretudo, após os atentados de Setembro de 2001. Nesse sentido, muitos grupos e células reviam-se na figura de Bin Laden, ainda que o poder deste fosse, desde há muito, mais de natureza simbólica do que propriamente operacional.

Maio 2, 2011 Posted by | Sem categoria | , , | 2 comentários

Morte de Bin Laden (I)

A morte de Bin Laden é uma notícia altamente relevante. Mas não é por isso que deve ser necessariamente qualificada como boa ou má. Admitindo que a sua morte fosse um objectivo táctico muito importante das forças norte-americanas, nem por isso temos de ficar contentes, rejubilando com este resultado. Por muito ingénuo que possa soar, sinto-me desconfortável a ouvir Obama dizer que se fez justiça. “Agora que finalmente o matámos, fez-se justiça”. Não. Não é uma justiça repadora, obviamente, nem corrige nada. Era um objectivo político e militar politica e militarmente legítimo, mas não era algo do foro da justiça.

Vindo eu de um país que aboliu a pena de morte há bem mais de 100 anos, sendo o primeiro país do mundo a fazê-lo, custa-me ouvir o nosso MNE, em comunicado, dar os parabéns aos EUA pela morte de uma pessoa. Lamento, mas não deixo de achar um pouco medieval.

Maio 2, 2011 Posted by | Sem categoria | , , , | 3 comentários

   

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