Tratados

NATO-Lisbon :: O unilateralismo norte-americano (autores convidados)

A questão do unilateralismo norte-americano nem nasceu com Bush nem desapareceu com Obama. É um debate que, como Åsne Kalland Aarstad explica hoje, tem implicações e custos em termos de definição de agenda política. O multilateralismo também tem custos, mas ainda assim a Administração Obama tem dado sinais de encarar a NATO numa perspectiva predominantemente multilateral – o discurso em West Point em Dezembro de 2009 e a posição em relação ao escudo antímíssil parecem secundar esta visão.

 

 

U.S unilateralism and NATO

U.S. unilateralism did not suddenly ’occur’ after 9/11, as the country has a long history of an ambivalent and selective attitude toward multilateral engagement. Parallel with this ambivalent attitude, however, the U.S. has continued to promote international institution, partly as a foundation of global leadership, but also as a general posture of self-restraint (’self- binding’) in the exercise of power. The Bush administration early signaled a new course and tone after having entered office in January 2001, by abrogating the Anti-Ballistic Missile Treaty with Russia, ’un-signing’ the Rome Statute of the ICC and opposing a draft UN convention to reduce illicit trafficking in small arms and light weapons, to mention a few. The events of 9/11 accelerated the unilateralist thrust of the Bush administration’s foreign policy, by reinforcing the administration’s skepticism of multilateral institutions. The nature of new threats, time-consuming multilateral diplomacy and the ’constraints of international legitimacy’ were seen as a dangerous and inefficient combination in the new post 9/11 security environment.

When the U.S. declared a ’global war on terror’, and furthermore insisted on waging this war unrestrained by the requirement of multilateral consensus in NATO, the country took a distinctive turn way from the self-binding strategy that it had previously pursued through multilateral cooperation. The Bush Administration decided to fight wars in Afghanistan and Iraq through ’coalitions of willings’, and specifically turned NATO’s Article 5 call for assistance down. ’As a result, in the view of many, NATO came to be treated by the United States a little more than a military contractor of first resort’, according to Mark Berdal & David Ucko. It could thus be tempting to suggest that NATO reached a point where its most important member state found the costs related to cooperation higher than ’doing it alone’, and as such that NATO lost much of its relevance.

However, the U.S.’s unilateralist action both in Afghanistan – and to an even larger extent in Iraq – can be claimed to have been a costly affair for the U.S., in particular with regards to the lengthy reconstruction and stabilization processes currently ongoing. In some respects, the missions in Afghanistan and Iraq served to demonstrate the advantages to be gained from bypassing NATO and working with a more flexible international coalition: ’The U.S. – led coalitions were unencumbered by the institutional constraints of alliance decision making, while Washington was able to pick and choose only what it wanted – and needed – from NATO assets and member states’, according to Michael Williams. Nevertheless, the flip-side of this decision came in the shape of vast challenges for conducting efficient post-war reconstruction and stabilization in the absence of facilitating institutional structures. ‘War by committee’ may not be the most efficient or least frustrating method for conducting military operations, but it does make each contributing nation a stakeholder in the operation and more likely to carry a proportionate share of the burden.

As such, the overall record of the Bush administration can be seen as providing evidence of the costs and limitations of ’doing it alone’. The slow realization by the Bush Administration that Iraq indeed was going to be a long and costly affair, revealed serious miscalculations about the reconstruction processes of its own military engagement. Similarly, the initial American insistence that Afghanistan was to remain outside NATO military structure, led to a complicated situation where the American-led Operation Enduring Freedom (OEF) and the NATO commanded International Security Assistance Force (ISAF) were formally kept separate even though their missions were complementary. This has gradually changed, as the Bush administration came to recognize that by initially rejecting NATO oversight, ’the high cost of operational incoherence and inefficiency far exceeded any potential gain of operational freedom’, according to James Sperling & Mark Webber. The overall judgment of the Bush Administration’s unilateral turn should thus be evaluated on the basis of the total costs of its agenda. There are reasons to believe that the ’annoying costs of multilateralism’ are likely to appear pale in comparison to the vast resources needed to sustain a unilateralist agenda, to borrow a formulation by Lisa Martin.

After the Obama Administration entered office in January 2009, there have been signs that the new administration seek to break with the Bush Administration’s ’do it alone’ mantra. It is not entirely clear how this will come to influence NATO, but Obama has taken steps to signal a closer commitment to the Alliance, for example in his speech at West Point given in December 2009 on the new Afghan war strategy. Another important development is Obama’s decision to put missile defense fully back within a NATO context, rather than through bilateral agreements (NATO Group of Experts). The new U.S. NATO Permanent Representative, Ivo Daalder, expressed a firm belief in continued institutional cooperation in his New York Times op-ed on the 18th of October:

’In today’s globalized, complex and unpredictable security environment, no country — and neither organization — can afford to stand alone.’

Åsne Kalland Aarstad – aasneka@gmail.com

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Novembro 15, 2010 Posted by | Sem categoria | , , | Deixe um comentário

Bruxelas, Washington e os pontos nos ii

Na conferência em que me encontro agora, a sessão mais interessante tinha o sugestivo nome “Do Transatlantic Relations Still Matter?” Como bem apontou o Embaixador francês no Canadá, para muita gente, esta questão no fundo significava: “Does Europe Still Matter?” Mas a verdade é que as relações transatlânticas nunca foram tão boas como tem acontecido desde o fim da guerra fria.

Contrariando discursos como os de Robert Kagan sobre Marte e Vénus, e assumpções/generalidades que dizem que a UE e os EUA, sobretudo durante a Administração Bush, se afastaram definitivamente, alguns analistas dizem precisamente o contrário. Andrew Moravcsik, da Universidade de Princeton, é deliciosamente persuasivo ao dizer que, mesmo na questão mais suspeita – intervenções militares dos EUA – a sintonia Bruxelas-Washington nunca foi tão forte. Durante a Guerra Fria, e desde a guerra da Coreia, praticamente todas as intervenções americanas tiveram a oposição dos (Estados) europeus. Vietname, Nicarágua, Suez, entre tantas outras, criaram verdadeiras crises atlânticas. Em sentido contrário, desde os anos 90, das várias intervenções “out of area” dos americanos, apenas a Guerra do Iraque (somente a segunda, porque em relação à primeira não houve problemas) gerou oposição europeia. E esta constatação surge na área que, normalmente, a incompatibilidade é apontada como sendo mais evidente. O resto é a democracia, comércio, direitos humanos, liberdades individuais, cooperação militar e estratégica, partilha de informação, investimento em conhecimento científico, e por aí fora.

Além disso, por muito que a retórica dominante aponte alegadas incompatibilidades insanáveis em muitas questões, em áreas como o contra-terrorismo, por exemplo, a “realidade real”, a implementação na prática, mostra uma cooperação que, hoje, é maior do que era há anos atrás. Na verdade, os preconceitos gerados à volta do inquilino da Casa Branca fazem toda a diferença para a maior parte dos analistas. Já reparam que Guantánamo continua por fechar, Israel continua a expandir os colonatos, não há qualquer miragem de processo de paz no Médio Oriente e a situação no eixo Afeganistão/Paquistão piorou? E já lá vai ano e meio.

Abril 17, 2010 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Ainda – e sempre – as relações transatlânticas

Numa perspectiva europeia, qual foi a importância das políticas adoptadas pela Administração Bush no pós-11 de Setembro? De que forma o intenso debate intra-europeu e transatlântico aquando da Guerra do Iraque influenciou a consciência colectiva europeia e ajudou a criar consensos para a definição de objectivos comuns mais ambiciosos? Será que podemos dizer que, por oposição aos EUA, a UE pôde “aumentar” o chamado “menor denominador comum”? Se sim, essa “elevação da fasquia” deu-se apenas no âmbito da política externa e de segurança ou alastrou a outros domínios? Será o Tratado de Lisboa ainda um reflexo indirecto dessa tendência?

Para procurar a resposta a estas e outras questões participarei numa Conferência do Council for European Studies da Universidade de Columbia. A Seventeenth International Conference terá lugar em Montreal entre 15 e 17 de Abril, e o painel em que estou inserido tem o nome “The George W. Bush Administration and the Development of ESDP“. O paper chama-se “Against All Odds: ESDP Developments in the Fight Against Terrorism during the Bush Administration“, e o resumo é o seguinte: 

Evidence shows that the terrorist attacks of 9/11 acted as an alarm call in the EU, leading to important developments in its foreign, security and defence policies. Milestone EU documents of the post-9/11 era such as the Laeken Declaration on the Future of Europe, the European Security Strategy (ESS) and the Treaty Establishing a Constitution for Europe reflected a growing concern about the threat posed by post-national terrorism, but modelled an EU approach that is different from the one adopted by Washington. Transatlantic debates on “new Europe vs old Europe” and pan-European introspections such as Habermas and Derridas’ “core Europe” influenced this autonomous path adopted by the EU as regards its foreign, security and defence polices, more specifically its approach to the fight against terrorism.

Being officially and theoretically established by several European Councils from 1999, the European Security and Defence Policy (ESDP) had not been conceived to fight terrorism, as this was generally perceived in the EU as an internal threat and, then, addressed under EU’s third pillar, relating to Justice and Home Affairs. Notwithstanding, 9/11 events contributed to a shift in this approach, and the European Council of Seville in June 2002 acknowledged the importance of the contribution of its Common Foreign and Security Policy (CFSP), including its European Security and Defence Policy (ESDP), in the fight against terrorism. The ESS of 2003 and many other documents further stressed that idea in identifying terrorism as one of the major threats confronting European security. Against this background, the aim of this paper is to examine and discuss the developments on ESDP in the Bush years, more specifically in what regards the development of an autonomous EU approach to the fight against terrorism; it shall appraise how this approach towards counterterrorism has challenged the EU security system and how the EU has adapted to it.

Abril 12, 2010 Posted by | 1 | , , , , , , | Deixe um comentário

Bruxelas no Pentágono

Ginsberg

Roy H. Ginsberg, um dos principais especialistas americanos em assuntos europeus e transatlânticos, esteve ontem no Porto para uma Aula Aberta no Centro para as Ciências da Comunicação da Universidade do Porto. Sob o mote “Transatlantic Relations in the Obama Era“, Ginsberg defendeu que, no que ao isolacionismo e à desvalorização dos aliados diz respeito, a Administração Bush aprendeu com os falhanços rotundos do primeiro mandato e, ao longo do segundo, inverteu o caminho. Um exemplo disso é o apoio dado à enérgica actuação francesa durante a guerra na Georgia em Agosto de 2008. O lamentável discurso acerca da velha Europa foi, gradualmente, substituído por um pragmatismo mais efectivo – e, se se quiser ser pragmático, facilmente se entende que o isolacionismo não é suficiente para lidar com crises internacionais.

Com a entrada em vigor da Administração Obama, o caminho parece apontar no mesmo sentido. Inclusivamente, no que diz respeito à defesa europeia, a Secretária de Estado Hillary Clinton referiu em Março, de forma explícita, que os Estados Unidos apoiam o desenvolvimento progressivo de uma capacidade de defesa europeia e um maior comprometimento internacional. 10 anos após o famoso artigo de Madeleine Albright no Financial Times, The Right Balance Will Secure NATO’s Future, e superadas as dúvidas de alguns acerca da compatibilidade entre a NATO e a PESD, uma Secretária de Estado americana volta a reconhecer o óbvio: os Estados Unidos têm muito a beneficiar da existência de uma dimensão de segurança e defesa no projecto europeu.

Ginsberg confessou que na semana passada esteve em Washington, para ser consultado na sua qualidade de especialista em assuntos europeus. A reunião foi no Pentágono. Sinais dos tempos.

Maio 20, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

   

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