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O ponto de partida

Copyright © Steve Bell 2008

Netanyahu viajou ontem à noite para Washington afim de reunir com Obama e de procurar estreitar laços diplomáticos com a Administração. Como se viu no passado recente, partir para este tipo de encontros com uma mão cheia de nada é contra-producente, e é por isso que na pasta do primeiro-ministro israelita vai um conjunto de propostas que ilustram uma nova abordagem israelita em relação ao processo de paz.

Em relação a este quinto encontro entre Obama e Netanyahu, o Haaretz descreve o estado actual desta relação de forma lapidar: “Obama is not convinced that Netanyahu is serious in his declared intentions regarding the process, and the Israeli premier is not confident that the current American administration is committed to maintaining the same relations with Israel as those held by its predecessors.” Mas isto não reduz, necessariamente, as expectivas quanto ao desfecho da reunião, uma vez que, sendo tão baixo o ponto de partida, o saldo do encontro pode até ser positivo.

Entretanto, Cathy Ashton pronunciou-se sobre as novas medidas propostas pelo Governo de Netanyahu relativamente a Gaza, congratulando-se com o facto de esta política poder ter impacto real na melhoria da qualidade de vida da população. Se a comunidade internacional perceber que só com grande pressão diplomática as coisas se começam a resolver, então aí tudo será melhor para todos – incluíndo os israelitas.

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Julho 6, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , | 4 comentários

ANÁLISE :: Batalha Naval afunda Israel

Há dias diziam-me que, por paradoxal que parecesse, a crise em torno do ataque israelita à flotilha ao largo de Gaza iria acabar por ser benéfica. Para os israelitas, o desastre diplomático comportaria um preço a pagar, e em última instância, levaria à quebra do status quo em relação a Gaza, inadmissível para a comunidade internacional mas, ainda assim, não tanto ao ponto de esta ser proactiva tendo em vista a resolução do problema. A morte  de 9 cidadãos turcos e a detenção, por umas horas, de centenas de cidadãos europeus e americanos, serviu de desbloquador. Agora que se perspectiva o levantamento de parte de bloqueio, os próximos desenvolvimentos dar-se-ão em dois tabuleiros.

Perspectivas internas

Numa esquizofrénica duplicidade de discursos, Netanyahu anunciou que iria aliviar o bloqueio fronteiriço a Gaza, que foi iniciado em 2007 após o Hamas ter assumido o poder neste território. Mas este anúncio apenas foi feito na versão em inglês, dirigida à comunidade internacional e aos jornalistas de órgãos de comunicação estrangeiros. Na versão em hebraico não houve menção a esta decisão. Pode especular-se sobre onde está a mentira, e se o seu objectivo está fora ou dentro das fronteiras do país (o governo pretendeu enganar a comunidade internacional ou os israelitas?), mas, em todo o caso, Netanyahu está a ser vítima de uma coligação ampla demais, onde se reflectem visões muito diferentes, e, também por isso, não tem sido o líder de que os israelitas tanto precisavam. Esta situação hilriante é bem reveladora desta tendência. Uma das últimas coisas de que Israel necessitava agora era de instabilidade política interna; mas a última seria mesmo um governo à deriva e à mercê de franjas mais radicais e incapaz de contrariar a crescente ortodoxidade social do país.

O novo contexto externo

Ao inserir-se numa linha de acontecimentos que, nos últimos 18 meses (desde a ofensiva em Gaza iniciada em 26 de Dezembro de 2008), têm contribuido para um progressivo isolamento internacional, o ataque à flotilha facilitou a opção de alguns indecisos que ainda balançavam entre ambos os lados e fez engrossar a massa dos que rejeitam firmemente este tipo de acções israelitas. A Administração Obama persegue uma linha mais exigente do que as suas antecessoras e a ONU continua na senda do respeito pelo direito internacional, caminho este que, mais tarde ou mais cedo, acaba por colidir com Telavive. Quanto à UE, é importante que se saiba que as suas fortes relações económicas com Israel são condicionadas pelo processo de paz com os palestinianos. E não se trata apenas de uma questão de retórica discursiva e de pressão diplomática; as negociações em torno do upgrade das relações entre ambos os lados, que ocorreram intensamente durante 2008, foram suspensas e não há, ainda, qualquer perspectiva de novo acordo. Neste momento, o instrumento jurídico de regula a relação, o Plano de Acção, viu o seu prazo de validade inicial expirado e sucessivamente prolongado. “Não mata mas mói”: parece ser essa a posição de Bruxelas, e, com efeito, o que se espera é que moa.

Junho 18, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

O círculo vicioso

O que é dramático para Israel é ter caído definitivamente num círculo vicioso que lhe causa muito mais danos do que gera benefícios. Pensa que i) “todos odeiam Israel”, ii) actua como tal, iii) recebe as consequências desses actos e depois diz iv) “estão a ver como todos odeiam Israel?”

Neste esquema mental, o ponto ii) é fundamental, porque faz com que exista um outro círculo vicioso do qual o Governo actual (e muitos outros que o precederam) não consegue sair. As forças israelitas disparam primeiro e  fazem as perguntas depois. Se as respostas conduzirem, ainda que minimamente, à ideia de que “todos odeiam Israel”, então aquele círculo vicioso inicial adensa-se. O problema vem quando as respostas às perguntas são inconvenientes. Aí, vale quase tudo para fazer valer a versão “oficial” que o Governo adopta: impedem-se inquéritos independentes, tenta-se silenciar os críticos, e sobe-se a retórica em relação aos supostos “inimigos internos”, aqueles cidadãos israelitas ou aqueles amigos de Israel que não aceitam este redemoínho pernicioso e que lamentam que tudo isto arraste o seu país para a lama, colocando verdadeiramente em causa a sua existência enquanto nação dos justos. É preciso tirar Israel do olho dos furacões que provoca, para que sinta os seus efeitos e que possa reerguer-se a partir daí.

Junho 7, 2010 Posted by | Sem categoria | , , | 3 comentários

Para onde vai Israel?

Começa a ficar claro que a estratégia do governo de Netanyahu para lidar com questões de segurança não produz resultados líquidos: os benefícios imediatos que retira de grande parte das acções irão repercutir-se contra o seu próprio país, no curto ou médio prazo. Pior ainda: esta abordagem dá eco a uma recente ascenção de determinadas franjas mais radicais na própria sociedade israelita e faz com que uma posição moderada seja mais difícil de sustentar.

Há já quem diga que muitos dos valores que fazem de Israel a única democracia no Médio Oriente estejam definitivamente em causa. E hoje já não são apenas as ONG de direitos humanos – também elas muitas vezes parte da hipocrisia argumentativa que, de parte a parte, defende o indefensável. Há muitos professores que têm as suas aulas e palestras gravadas por gravadores escondidos, e que são analisadas a posteriori. Há muita pressão sobre os professores, os intelectuais ou artistas que defendem posições que clamam contra o status quo, e há várias organizações da sociedade civil (e não apenas ONG de direitos humanos) que vêem os seus fundos cortados ou congelados. Esta questão tem criado muito atrito diplomático entre o governo e a UE, uma vez que alguns dos projectos que a Comissão Europeia financia em Israel estão a ser boicotados, uns de forma aberta, outros de forma mais encapotada.

Aquando das eleições de Fevereiro de 2009 que colocaram Netanyahu na chefia do governo, vários analistas anteciparam a nefasta influência das franjas que permitiram criar a coligação. Parece agora claro que as suas previsões eram acertadas. Em momentos de crise como o que se vive hoje, as diferentes sensibilidades do governo manifestam-se claramente, e para cada questão há várias posições diferentes. Falta saber o que acontecerá a Ehud Barak, fragilizado enquanto ministro da defesa, e perceber quais as vozes que se imporão no seio da coligação.  

Junho 3, 2010 Posted by | Sem categoria | , , | 2 comentários

ANÁLISE :: Negociações indirectas entre israelitas e palestinianos

No passado sábado, o impasse em torno da possibilidade de retoma das negociações indirectas entre israelitas e palestinianos foi desbloquado e as conversações, sob mediação de enviados norte-americanos da equipa de George Mitchell, foram encetadas ontem. Este foi o primeiro passo concreto, em 18 meses, a conferir sentido à expressão “processo de paz”. Há ano e meio que não havia processo de paz.

Ao patrocinar este avanço, a Administração de Obama concretiza o seu empenhamento na questão, na tradição das Administrações americanas. Mas a escalada da retórica entre Washington e Jerusalém verificada nos últimos meses poderá marcar o desfecho das conversações e apontar novos desenvolvimentos para o futuro. Philip Crowly, Secretário de Estado adjunto, deixou bem claro que, se nesta fase algumas das partes tomar acções que comprometam a confiança mútua, serão responsabilizadas pelos mediadores norte-americanos, que não obstante asseguram que não deixarão cair as negociações.

Para já, Mahmoud Abbas comprometeu-se a combater qualquer tipo de incitamento à violência, e Netanyahu assegurou que, durante os próximos anos, nenhuma casa será construída em Ramat Shlomo. Foi esta última questão que esteve na origem do surto de tensão entre norte-americanos e israelitas há algumas semanas, e esteve agora na génese do princípio de acordo. Apesar de ambos serem objectivos pouco ambiciosos e pouco tangíveis (o que é incitamento? E quanto aos outros colonatos?), são um sinal positivo dado pelos intervenientes, o primeiro desde a ofensiva israelita em Gaza iniciada em Dezembro de 2008. No entanto, como todos os intervenientes sabem, será preciso muito mais do que isto para se aspirar a um desfecho positivo do processo de paz. 

Maio 10, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , , | Deixe um comentário

Israel olha para a crise

Gideon ROSE: Do the Israelis view this as an attempt by the Obama administration to force Netanyahu to do something that will disrupt his coalition and make the government fall?

Ehud YAARI: Absolutely so. I think that the sense in Israel right now — and as I said, the prime minister is just about to land — is that Mr. Netanyahu and Barak — and it’s very important that he took with him the defense minister because he wanted to reassure President Obama that he is indeed talking about a two-state solution; that he is bringing his closest ally, the defense minister who was the man who made the proposals at Camp David 2000. But instead, he was presented by what is perceived at the moment, at least now, as a bend or break, with demands that are very difficult for him to accept.

Now, if the American moves are generated by the wish to see a different government in Israel, then I have to say that, number one, I don’t think that the Netanyahu coalition is about to disintegrate; and number two, I do not think that Kadima Party, Mrs. Livni, who seems to be viewed more favorably in Washington, that is going to join — to join the coalition anytime soon. And if it did — coalition (break down ) — and we go to early elections, I can assure you — and I’ll take the responsibility for that — that the right wing will win.

Entrevista para a Foreign Affairs de Gideon Rose a Ehud Yaari, Lafer International Fellow no Washington Institute for Near East Policy.

Abril 5, 2010 Posted by | 1 | , , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: As duas faces dos falhanços de Netanyahu

Como é sabido, as linhas com que Israel cose a sua política externa e de segurança são diferentes das de qualquer outro país, muitas vezes um pouco para lá daquilo que, desde há uns 150 anos para cá, se vem chamando de direito internacional. Por vários motivos, uns mais, outros menos justificáveis, a chamada ‘comunidade internacional’ apresenta um comportamento que, tanto do ponto de vista jurídico como, sobretudo, político, tem validado explícita ou tacitamente muitas das opções dos governos de Telavive. (Já agora, é engraçado chamar-se no estrangeiro ‘governo de Telavive’ quando todos os ministérios – exceptuando o da defesa – e o Knesset estão em Jerusalém, a verdadeira capital de Israel.) Mas nem todas as regras são eternas nem as relações são imaculadas, por mais fortes e inquebrantáveis que sejam

E é por isso que, em certas alturas, as coisas correm menos bem. Ontem, Israel sofreu mais dois fortes abalos no seu prestígio internacional, duas afrontas protagonizadas por dois dos seus aliados mais importantes. O Reino Unido expulsou um diplomata israelita por suspeitas de ser um dirigente da Mossad e de ter estado envolvido na falsificação de passaportes britânicos utilizados no assassinato no Dubai de um dirigente do Hamas (Miliband foi bem explícito e bem duro na retórica), há umas semanas atrás, e a reunião Obama – Netanyahu, segundo o New York Times, aparentemente não contribuiu para resolver a tensão surgida nos últimos dias entre os dois grandes aliados. Netanyahu está agora a colher os “frutos diplomáticos” das sementes que foi criando ao longo de um ano de Governo, e parece ficar um pouco isolado relativamente a Londres e Washington. Agora, saber se isso o preocupa ou não é outra questão…  

Março 24, 2010 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Geografia da expansão dos colonatos

No passado mês de Novembro, a Foundation for the Middle East – uma das instituições cujas publicações estão na lista de leituras obrigatórias – publicou um mapa com os planos de expansão dos colonatos israelitas até 2015 e 2020, que prevêm a construção de 14.123 casas em território palestiniano, próximo da fronteira com Israel. Não tenho números acerca da média de elementos por agregado familiar nos colonatos, mas sei, por experiência própria, que a densidade populacional (judaica) nos colonatos é bem superior à do restante território israelita, uma vez que muitos colonos vestem a pele de pioneiros missionários para os quais a demografia é uma arma. Com isto quero dizer que estas casas corresponderão a pelo menos 50.000 novos colonos israelitas nos territórios da Palestina.

Trago agora este mapa a este espaço uma vez que ali, em Novembro, estavam já previstas as 1600 novas habitações de Ramat Shlomo, aquelas cuja construção aparentemente esteve no início da tensão israelo-americana. Faço esta nuance porque os anúncios de expansão dos colonatos são usuais desde que Netanyahu chegou ao poder e terminou com a hipocrisia do anterior Governo, que clamava que havia congelamento dos colonatos e depois era ver as máquinas a trabalhar sem parar. Reitero o que disse no post anterior acerca deste tema: a Administração Obama assume agora uma nova linha de ruptura com Netanyahu porque decidiu estrategicamente elevar a retórica, e não porque se sentiu especialmente insultada pelo anúncio de expansão de colonatos – expansão esta que, como se vê, estava prevista desde há vários meses.

Na parte direita do mapa vê-se o colonato de Ma’ale Adumim. Este é um dos destinos obrigatórios das visitas que organizações israelitas de direitos humanos promovem destinadas a jornalistas e diplomatas estrangeiros, e que os leva a visitar a geografia da expansão dos colonatos. Visitei Ma’ale Adumim e vi uma cidade de 50 000 pessoas, com escolas, quartéis de bombeiros, shoppings, cinemas, piscinas, e jardins verdejantes rodeados de terra árida. Olha-se para fora do colonato e vê-se uma paisagem quase lunar, com terra seca, montes, e mais nada. Quem acha que os colonatos serão desmantelados mais cedo ou mais tarde numa solução definitiva nunca viu Ma’ale Adumim.

Março 22, 2010 Posted by | 1 | , , , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: Surto de violência em Israel

A actual situação de tensão entre Israel e palestinianos, por um lado, e entre Israel e os EUA, por outro, tem vindo a ser cozinhada desde há ano e meio, desde o surto de violência protagonizado pelos colonos israelitas e que os opôs tanto aos palestinianos como às próprias forças de seguranças israelitas. Já na altura escrevi, num paper para o CEPESE da Universidade do Porto, que estas acções colocavam o Estado judaico perante um desafio ao Estado de direito e ao primado da lei. Nesse teste, Israel chumbou. Netanyahu e o seu governo de coligação com extremistas mais radicais do que Bibi, eleitos alguns meses depois, têm feito o resto. É  provável que, com Livni, a situação fosse diferente.

O quadro actual é formatado por duas ideias basilares: por um lado, a contínua expansão de colonatos israelitas está a fazer transbordar a ira dos palestinianos e, como já tantas e tantas vezes foi dito, enquanto este movimento persistir, não há sequer miragem de processo de paz. É uma contradição em si mesma. Por outro lado, a  tensão com os Estados Unidos parece chegar do facto de Obama e Hillary Clinton estarem a permitir que se perceba que perceberam que não têm em Netanyahu um parceiro credível para negociar. A escalada de retórica da parte de Washington surge agora por, com o Vice Joe Biden em Israel em viagem e tentativa de relançamento das negociações, persistirem os anúncios de que a expansão dos colonatos irá continuar, desta feita com mais 1600 casas em Ramat Shlomo. Washington considerou este anúncio um insulto, mas a verdade é que insultos destes há todos os dias. Aguarda-se a posição da Administração Obama neste que é, até agora, o maior desafio colocado perante si no que respeita ao seu empenho na resolução do problema israelo-palestiniano. Netenyahu terá percebido a fraqueza de Obama no que concerne ao conflito e foi esticando a corda. A verdade é uma: se nos últimos anos não houve senão retrocessos, a evidência empírica aponta para a necessidade óbvia de se mudar a abordagem.

As hipóteses de haver uma escalada de tensão ao ponto de originar uma terceira intifada serão maiores se houver, também, uma escalada de retórica e a adopção de determinadas medidas por parte da Autoridade Palestiniana. Se há facções palestinianas interessadas neste cenário, outras há para quem só o cenário actual é conveniente. A Fatah saberá que a violência potencia o extremismo e, por isso, beneficia em última instância o Hamas. E é nesta balança que os seus líderes terão de actuar, sendo certo que qualquer decisão tomada terá implicações decisivas na política da região.

(corrigido)

Imagem: UPI.com

Março 16, 2010 Posted by | 1 | , , , , , , , , | Deixe um comentário

Netanyahu e o braço-de-ferro

Muito boa a análise de Alexandre Guerra à questão da construção de 900 novas casas em Jerusalém Oriental. Netenyahu demonstra que, diplomaticamente, irá fazer valer as suas pretensões, independentemente da vontade de Washington; e confirma-se que Obama terá de se empenhar ao mais alto nível para conseguir avançar nas negociações de paz. Como Akiva Eldar escreve hoje no Haaretz, Netanyahu parece pressentir a fraqueza de Obama em questões relacionadas com o processo de paz, e é isso que tem permitido levar tão longe o braço de ferro com Washington. Obama terá de se envolver pessoalmente no processo de paz com uma profundidade superior à demonstrada até agora – só assim voltará a colocar Washington com um ascendente sobre Israel. 

Novembro 18, 2009 Posted by | 1 | , , , , | 1 Comentário

ANÁLISE :: Irão nuclear, Israel e os Estados Unidos

Obama - NetanyahuHá mais de um ano que a principal linha de actuação da política externa israelita é enfatizar a ameaça nuclear iraniana e, assim, alastrar a percepção da ameaça a outros países, de modo a envolvê-los nessa “sua” luta. Claro que esta luta, em rigor, não é só sua, mas é também claro que em mais lado nenhum do mundo a percepção da ameaça é tão latente. A percepção é maior, mas será a ameaça, em si, também maior?

Ahmedinejad tem feito a sua parte neste processo de crescimento de tensão. As percepções de ameaça são fenómenos sociais muito complexos, e em Israel são extremamente exacerbados – mas com mais justificação do que por vezes se faz crer. Em “1967: Israel, the War and the Year that Transformed the Middle East”, Tom Segev relata de forma impressionante o clima vivido em Israel desde os finais de 1966 até ao início de Junho de 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Era uma atmosfera de medo socialmente transversal, com um crescimento progressivo que fez com que, nos primeiros dias de Junho desse ano, o ataque preventivo israelita fosse já mais provável do que o ataque dos vizinhos árabes. Nestes processos de escalada, uns embarcam, outros não.

Netanyahu tem tentado convencer Obama da ameaça iminente que um Irão nuclear representa. Obama sabe disso, mas as soluções que adopta são diferentes das que Netanyahu deseja. Mas se fosse outro o Presidente americano? Em que ponto da escalada de tensão estaríamos agora, quando o tempo passa e Teerão avança no processo de nuclearização?  A avaliação das posturas dos dois líderes vai para além da frase da praxe “o futuro o dirá” – porque as atitudes de um líder moldam os acontecimentos. Esperemos que Obama esteja certo.

Foto: Haaretz,  aquando da visita de Netanyahu à Casa Branca, em Maio passado.

Outubro 16, 2009 Posted by | 1 | , , , , , | Deixe um comentário

Não há processo de paz

west-bank-israeli-_1000389cÉ muito simples: enquanto houver crescimento de colonatos na Cisjordânia, não há processo de paz. Porque o “processo” que existe nesse caso vai contra qualquer perspectiva de paz. Neste momento, nem a mão miraculosa de Obama vale de nada: não há processo de paz. No conflito israelo-palestiniano poucas coisas são tão simples de entender.

JERUSALEM (Reuters) – Israel approved on Monday the building of 450 settler homes in the occupied West Bank, a move opposed by its U.S. ally and Palestinians but which could pave the way for a construction moratorium sought by Washington.

A Defense Ministry list of the first such building permits since Prime Minister Benjamin Netanyahu took office in March showed the homes would be erected in areas Israel has said it intends to keep in a future peace deal with the Palestinians.

Palestinian chief negotiator Saeb Erekat said Israel’s decision further undermined any belief that it is a credible partner for peace.”

Ler o resto aqui. Foto: REUTERS. Colonato de Ofra, na Cisjordânia.

Little boxes on the hillside,
Little boxes made of ticky-tacky,
Little boxes on the hillside,
Little boxes, all the same.
There’s a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they’re all made out of ticky-tacky
And they all look just the same

Setembro 7, 2009 Posted by | 1 | , , , , | 1 Comentário

“New Hope for Peace”?

FMEP

A Foundation for Middle East Peace é uma instituição norte-americana que promove a divulgação de informação sobre o conflito israelo-palestiniano. Os seus relatórios mensais sobre os colonatos israelitas são talvez a principal referência nesta questão, e os mapas detalhados que fornece são também importantes instrumentos de análise. Agora, lançam um DVD chamado New Hope for Peace, em que recolhem depoimentos de quatro altas figuras da diplomacia norte-americana que estão ou estiveram de alguma forma ligados ao conflito: Jimmy Carter, James Baker, Brent Scowcroft e Zgibniew Brzezinski. Todos convergem na defesa da (óbvia) solução de dois estados e todos realçam a importância de uma liderança america forte – sobretudo, acrescento eu, quando o interlocutor palestiniano (a Autoridade Palestiniana) continua com pouco poder negocial e uma vontade (no mínimo) limitada e quando os interlocutores israelitas são Netanyahu e Lieberman. A primeira parte do documentário pode ser vista aqui, e abaixo reproduzo algumas das ideias de cada um dos quatro entrevistados.

Jimmy Carter – The overwhelming majority of Israelis and Palestinians want peace… The President should make his policies clear on settlements, home demolitions, Israel security, and East Jerusalem…

James Baker – The vast majority of the Israelis are tired of being a nation perpetually at war…they want to see a secure peace agreement, and so do the Palestinians… Hard liners on both sides are the biggest obstacles to peace…You have to talk to your enemies…

Brent Scowcroft – We must play a more active role…We need to act decisively and comprehensively…The President needs to step up and say “this is the American proposal.” …it will turn around the psychological atmosphere in the Middle East. 

Zbigniew Brzezinski – Two decent peoples are locked in a mortal embrace…they cannot move toward peace unless someone helps… It takes an impartial, energetic outside mediator… there is only one candidate…the U.S., and more specifically the President. 

Junho 29, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , | Deixe um comentário

Jerusalem, Washington

DSC06067Junto à Praça do Município, em Jerusalém, encontra-se este mapa gravado numa parede; um mapa-mundi que representa o mundo conhecido de então, com Jerusalém ao centro. Se hoje a Europa é o eixo, se em tempos era a China a ocupar esse lugar, também Jerusalém pôde reivindicar esse estatuto. E, de certa forma, ainda pode. Netanyahu foi a Washington dizer isso mesmo a Obama, com Teerão no pensamento; e é provável que ouça o mesmo acerca da importância de todas as questões relacionadas com a região, mas com uma perspectiva diferente. Obama sabe que, depois do Iraque em 2003, já basta de precipitações naquela zona. E sabe também que, sem um Estado palestiniano viável, não há, nem haverá nunca, uma paz duradoura na região. É por isso que a nota dominante da posição americana para este encontro com o Primeiro-Ministro israelita se relaciona com o processo de paz, e não com uma ofensiva contra o Irão.    

Maio 18, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

   

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