Tratados

Realidade e ficção II

As origens do receio israelita relativo a actividade nuclear por parte da Síria remontam ao início do consulado de Bashar al-Assad, presidente sírio desde Julho de 2000. As notícias acerca de reuniões suas com delegações norte-coreanas de alto-nível, no entanto, e de acordo com a história do Der Spiegel, não terão levantado grandes preocupações até 2004, data em que a norte-americana National Security Agency detectou um enorme fluxo de comunicações entre Pyongyang e um ponto localizado no deserto sírio. Uma vez dado o alarme, seria tempo de Telavive actuar.

Aparentemente, Israel terá decidido consultar-se com os seus congéneres britânicos, justamente numa altura em que um oficial do Governo sírio, seguido pela Mossad desde há algum tempo, se alojava em Londres. Um descuido seu permitiu que fosse instalado no seu computador portátil uma aplicação informática que revelou plantas, mapas e sobretudo fotos do complexo de Al-Kibar (o tal ponto no deserto), que revelavam actividades nucleares.

Em 2007, Ali-Reza Asgari, antigo líder da Guarda Revolucionária Iraniana no Líbano, nos anos 80, e ex-Vice Ministro da Defesa Iraniano até 2005, corria risco de vida. Afastado do poder após a eleição de Ahmedinejad, tinha subido a retórica relativamente a alguns apoiantes do novo Presidente iraniano, acusando-os de corrupção, e tentava agora novamente refugiar-se no estrangeiro, após duas tentativas mal sucedidas, em 2006. E estava disposto a colaborar com a CIA e a Mossad. Entre muitas informações preciosas, terá dito que Teerão tinha um plano B: para além das instalações de Natanz, onde estavam a enriquecer urânio com conhecimento dos EUA e de Israel, estavam a financiar a construção de uma instalação na Síria, num projecto realizado em parceria com os norte-coreanos. Era a confirmação que faltava.

(continua)   

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Novembro 26, 2009 Posted by | 1 | , , , , , | Deixe um comentário

Realidade e ficção

Em “Mossad: Os Segredos da Espionagem Israelita”, Victor Ostrovsky, ex-oficial do exército israelita e ex-agente da Mossad, conta com detalhes arrepiantes a teia criada pelos serviços secretos israelitas para recolher informações acerca do complexo nuclear iraquiano de Ozirak, perto de Bagdad. O enredo criado levou as investigações até Paris e as informações recolhidas junto de um cientista iraquiano, Butrus Eben Halim, permitiram localizar com total detalhe o complexo, e contribuiram para que a arriscada “Operação Esfinge”, executada em 7 de Junho de 1981, fosse bem sucedida. Aqui, a realidade supera a ficção em detalhe, imaginação e suspense.

Mas também se sabe que esta operação foi apenas uma das muitas acções secretas que Israel leva a cabo para prosseguir os seus objectivos estratégicos. No Expresso desta semana, Henrique Cymerman levanta o véu sobre o ataque israelita a um complexo nuclear sírio em 2007, do qual muito pouco se sabia para lá da especulação. Aparentemente, a instalação síria estava a ser financiada por Teerão para servir de reserva, para que um eventual ataque israelita ou norte-americano não comprometesse os avanços do programa nuclear iraniano.

(continua)  

Novembro 25, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: Irão nuclear, Israel e os Estados Unidos

Obama - NetanyahuHá mais de um ano que a principal linha de actuação da política externa israelita é enfatizar a ameaça nuclear iraniana e, assim, alastrar a percepção da ameaça a outros países, de modo a envolvê-los nessa “sua” luta. Claro que esta luta, em rigor, não é só sua, mas é também claro que em mais lado nenhum do mundo a percepção da ameaça é tão latente. A percepção é maior, mas será a ameaça, em si, também maior?

Ahmedinejad tem feito a sua parte neste processo de crescimento de tensão. As percepções de ameaça são fenómenos sociais muito complexos, e em Israel são extremamente exacerbados – mas com mais justificação do que por vezes se faz crer. Em “1967: Israel, the War and the Year that Transformed the Middle East”, Tom Segev relata de forma impressionante o clima vivido em Israel desde os finais de 1966 até ao início de Junho de 1967, às vésperas da Guerra dos Seis Dias. Era uma atmosfera de medo socialmente transversal, com um crescimento progressivo que fez com que, nos primeiros dias de Junho desse ano, o ataque preventivo israelita fosse já mais provável do que o ataque dos vizinhos árabes. Nestes processos de escalada, uns embarcam, outros não.

Netanyahu tem tentado convencer Obama da ameaça iminente que um Irão nuclear representa. Obama sabe disso, mas as soluções que adopta são diferentes das que Netanyahu deseja. Mas se fosse outro o Presidente americano? Em que ponto da escalada de tensão estaríamos agora, quando o tempo passa e Teerão avança no processo de nuclearização?  A avaliação das posturas dos dois líderes vai para além da frase da praxe “o futuro o dirá” – porque as atitudes de um líder moldam os acontecimentos. Esperemos que Obama esteja certo.

Foto: Haaretz,  aquando da visita de Netanyahu à Casa Branca, em Maio passado.

Outubro 16, 2009 Posted by | 1 | , , , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: De AfPak a PakAf

 Pakistan taliban May 2009

Num relatório de Abril publicado pelo Council on Foreign Relations, Daniel Markey sugere que a estratégia norte-americana para a Ásia do Sul deixe de ser designada pelo petit-nom de AfPak, e passe a assumir-se como PakAf. A lógica da proposta é óbvia: desde há vários meses, o Paquistão tem vindo a substituir o Afeganistão no topo da lista de preocupações dos norte-americanos relativas àquela região. Todo o contexto político, geográfico, militar e governativo apontam para um cenário que põe em causa, de forma inquestionável e incomparável, o sistema de segurança internacional.

Este quadro geral é traçado igualmente num artigo de Ahmed Rashid a publicar no próximo número da New York Review of Books, que será editado na versão de papel apenas no dia 11 de Junho, mas que já se encontra disponível online desde a semana passada. Em “Pakistan on the Brink“, o autor de “Os Talibãs” (2000) e de “Descent into Chaos: How  the War Against Islamic Extremism is being lost in Pakistan, Afghanistan and Central Asia” (2009) descreve sumariamente o mosaico da instabilidade paquistanesa referindo as cumplicidades entre as forças militares e os serviços secretos (Inter-Services Intelligence Directorate), por um lado, e os taliban, por outro; a incapacidade de decisão, o isolamento e falta de autoridade do presidente Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto; a emergência de novos grupos terroristas com agendas políticas tão diversas como o apoio à al-Qaeda e/ou aos taliban, a luta contra a India ou reforço do nacionalismo pashtun, entre muitos outros; e o avanço dos taliban, que actualmente controlam ou reclamam controlo de 11% do território. Após se instalarem em Quetta em 2007, assumindo-a como a sua nova capital, os taliban têm avançado ao longo da fronteira com o Afeganistão para  Norte e para o interior, estando actualmente a poucas dezenas de kms da capital Islamabad. O mapa reproduzido acima, retirado de uma notícia do BBC World Service de 13 de Maio, aponta para uma presença crescente dos taliban no norte do país, uma zona onde, de acordo com os dados recolhidos pelos correspondentes da BBC e detalhados na notícia, o Governo central apenas detém controlo sobre 38% do território.

Há duas ideias que devem ainda ser deixadas: em primeiro lugar, apesar do sucesso da ofensiva, existem várias divergências entre os taliban e outros grupos que têm participado nas acções e entre as diferentes facções dentro dos próprios taliban – o que poderá  dificultar ainda mais uma resposta eficaz da parte do governo paquistanês e de, eventualmente, forças internacionais, numa fase talvez não muito distante.

pakistan-map-airbase

Em segundo lugar, e como Hillary Clinton assinalou em 23 de Abril, a presença dos taliban no Paquistão representa “uma ameaça mortal para o mundo”, porque nunca antes um grupo terrorista esteve tão perto de aceder a arsenais nucleares. De acordo ainda com o artigo citado de Ahmed Rashid, o Paquistão terá entre 60 e 100 armas nucleares, a maioria das quais se encontra na parte ocidental da província de Punjab, onde os taliban têm feito algumas incursões recentemente. O segundo mapa reproduzido ilustra a importância estratégica desta província, assinalando a presença, aqui, da maioria das bases aéras paquistanesas. As próximas semanas e os próximos meses mostrarão certamente um aumento da violência e uma intensificação das ofensivas de ambas as partes – mais do que isto, neste cenário tão complexo e volátil, é difícil de prever.

 

 

Junho 2, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

   

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