Tratados

Business as usual

Fonte: AP

Após três anos de ausência de atentados terroristas em solo israelita, Jerusalém voltou hoje a sentir a explosão de uma bomba numa paragem de autocarro. Um morto, trinta feridos e algumas coisas ainda por perceber, nomeadamente a eventual relação com o lançamento de um rocket a partir de Gaza em direcção a Beersheva, umas horas antes.

Netanyahu cancelou a visita a Moscovo que tinha programada para acompanhar a situação. É uma experiência traumatizante e corresponde ao renascimento de um sentimento colectivo de insegurança que os israelitas tanto têm feito por esquecer, uma vez que o último ataque terrorista à bomba em Jerusalém foi em 2004. A sucessão de reacções oficiais palestinianas e israelitas traz luz em relação àquilo que se pode esperar nos próximos dias, sendo que dificilmente deixará de haver qualquer tipo de acção por parte das forças israelitas, ainda que o primeiro-ministro palestiniano Fayyad tenha condenado o ataque de forma veemente. Ehud Barak, ministro da defesa, associou o ataque ao Hamas e deixou no ar uma clara intenção de retaliação. Como sempre, será uma questão de horas.

Março 23, 2011 Posted by | Sem categoria | , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: Economia da expansão dos colonatos

O porta-voz da Alta-Representante Cathy Ashton veio hoje reagir ao anúncio de Israel de que vai construir mais 1300 casas na Cisjordância. A expansão dos colonatos esteve congelada até Setembro mas agora, conforme esperado, a desfaçatez regressou (lamento mas é a palavra que me ocorre). No comunicado apresentado hoje, a UE reafirma a ilegalidade dos colonatos à luz do direito internacional e sublinha que a construção destas habitações em Jerusalém Oriental é um obstáculo à paz e que ameaça tornar impossível a solução dos dois Estados.

Para Cathy Ashton, a realização de avanços no processo de paz é claramente uma prioridade. Isso tem sido verificado ao longo deste seu primeiro ano de mandato e constitui talvez a principal marca que tem deixado neste período. Confrontado com sucessivas crises, o estado actual da relação entre Israel e a UE reflecte o desencanto – recíproco – entre os parceiros, e surge como uma das consequências mais previsíveis das eleições que recolocaram Bibi Netanyahu no poder, em Fevereiro de 2009. A linha política seguida pela direita israelita não é subscrita nem pela UE nem pela actual administração norte-americana, mas isso continua a não perturbar decisivamente o rumo seguido por Netanyahu. O que é que será preciso para que o status quo se altere?

Provavelmente, só os factores demográfico e, por arrasto, económico. Numa altura em que a população de Israel é, em mais de 20%, árabe, e em que as taxas de crescimento entre esta franja social são superiores aos restantes israelitas, a crescente anexação de facto de mais território só aumenta os encargos económicos e sociais do Estado judaico. Por um lado, a discriminação que existe em relação à minoria árabe israelita impede que estes cidadãos se sintam “tão israelitas” como “os outros”; e os encargos advindos da expansão de colonatos (estradas, despesas com segurança, muros, etc) são relevantes, do ponto de vista económico. Portanto, mesmo do ponto de vista social e económico (pelo menos destes), a construção de um Estado palestiniano é positiva para Israel. Mesmo olhando para esta questão de um ponto de vista dos interesses israelitas, a crescente expansão dos colonatos não faz sentido, tanto em termos de diplomacia internacional como numa perspectiva económica e social. Por isso, todas as iniciativas que atrasem e comprometam este desfecho são prejudiciais a Israel.

Novembro 9, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

“The EU can be a player, not just a payer”

Curiosamente é o próprio primeiro-ministro palestiniano que diz aquilo que a UE deveria ser, num engraçado jogo de palavras que caricatura bem a grande parte da política da UE em relação ao conflito israelo-palestiniano. (PS – na notícia, conferir intervenção do eurodeputado Miguel Portas)

Fayyad at the EP: EU can be a player, not just a payer

The EU, as the biggest donor to the Palestinian Authority, has a more important role to play now than ever before, Palestinian Prime Minister Salam Fayyad told Budgets Committee MEPs on Tuesday.

Julho 14, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , , | Deixe um comentário

Quem não tem cão, caça com gato.

The European Commission is to propose full opening of the EU market to Palestinian exports in an effort to boost the Palestinian economy, EU Trade Commissioner Karel De Gucht said today after meeting Palestinian Minister of National Economy Hasan Abu-Libdeh to discuss measures to enhance trade relations.”

Junho 10, 2010 Posted by | Sem categoria | , , | Deixe um comentário

Balanço da Parceria Euro-Mediterrânica

 

De acordo com uma consulta a 371 especialistas e actores de 43 países do Mediterrâneo e da UE, o conflito israelo-palestiniano é um grande obstáculo para a Parceria Euro-Mediterrânica, com capacidade de paralisar este processo. Transcrevo abaixo um resumo das conclusões, retirado daqui. O documento “Assessment of the Euro-Mediterranean Partnership: Perceptions and Realities” pode ser lido aqui.

It terms of obstacles, the survey found a wide consensus on the difficulties posed by the Middle East conflict, with 73% saying it seriously endangered the Partnership. The two other obstacles most often mentioned are the weak political will for reform in Mediterranean Partner Countries (43% of respondents) and the lack of South-South integration (43%).

The survey also pointed to the problem of understanding of the Partnership: “14 years after its inception, the Euro-Mediterranean Partnership is diversifying into a set of differentiated thematic processes which are difficult to grasp even for experts and actors selected for the Survey,” the report said, pointing to the high percentage of “Don’t know” answers for many questions seeking a detailed assessment of concrete instruments or progress.

In many respects, it added however, this diversification was “a sign of the Euro-Mediterranean Partnership migrating from the realm of diplomats and generalist civil society actors to the remit of specialized ministerial experts and civil society organizations and even interest groups.”

Indeed, a more detailed analysis of the Partnership by priority areas, reveals a relatively high appreciation of action in the cultural and education fields and the people-to-people programmes, but also that respondents consider that the Euro-Mediterranean Partnership is mainly benefiting the business climate and economic interests, but without this translating into job creation, women’s integration into economic life or a convergence towards EU income levels.

According to a synthesis of results, the Survey offers a clear picture of what has worked and what has not in the Euro-Mediterranean Partnership.

Successes:

– Business climate

– Multilateral programmes in the economic field (role of FEMIP and Medibtikar and Invest in Med Programmes)

– Increasing the awareness and understanding of the different cultures and civilizations

– Educational, cultural, youth and research exchanges (Euromed Heritage, Anna Lindh Foundation, Regional Informationa and Communication Programme, Euromed Youth, Gender Equality Programme)

– Programme on the Role of Women in Economic Life

Failures:

– Enabling citizens to participate in decision-making at local level

– Sustainable development

– Strengthening financial cooperation

– South-South regional economic integration

– Reducing disparities in education achievement

– Cooperation in migration, justice and security

– Facilitating mobility and managing migration

Looking forward, respondents envisaged a bleak future dominated by the Middle East conflict, growing water shortages and social tensions, leading to increased irregular migration to Europe. Taking this into account, they set as top priorities for the Union for the Mediterranean:

– Conflict resolution in the region (62% of respondents)

– Promotion of democracy and political pluralism (49%)

– Water access and sustainability (41.5%)

– Education (41%)

 

 

Junho 2, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

Geografia da expansão dos colonatos

No passado mês de Novembro, a Foundation for the Middle East – uma das instituições cujas publicações estão na lista de leituras obrigatórias – publicou um mapa com os planos de expansão dos colonatos israelitas até 2015 e 2020, que prevêm a construção de 14.123 casas em território palestiniano, próximo da fronteira com Israel. Não tenho números acerca da média de elementos por agregado familiar nos colonatos, mas sei, por experiência própria, que a densidade populacional (judaica) nos colonatos é bem superior à do restante território israelita, uma vez que muitos colonos vestem a pele de pioneiros missionários para os quais a demografia é uma arma. Com isto quero dizer que estas casas corresponderão a pelo menos 50.000 novos colonos israelitas nos territórios da Palestina.

Trago agora este mapa a este espaço uma vez que ali, em Novembro, estavam já previstas as 1600 novas habitações de Ramat Shlomo, aquelas cuja construção aparentemente esteve no início da tensão israelo-americana. Faço esta nuance porque os anúncios de expansão dos colonatos são usuais desde que Netanyahu chegou ao poder e terminou com a hipocrisia do anterior Governo, que clamava que havia congelamento dos colonatos e depois era ver as máquinas a trabalhar sem parar. Reitero o que disse no post anterior acerca deste tema: a Administração Obama assume agora uma nova linha de ruptura com Netanyahu porque decidiu estrategicamente elevar a retórica, e não porque se sentiu especialmente insultada pelo anúncio de expansão de colonatos – expansão esta que, como se vê, estava prevista desde há vários meses.

Na parte direita do mapa vê-se o colonato de Ma’ale Adumim. Este é um dos destinos obrigatórios das visitas que organizações israelitas de direitos humanos promovem destinadas a jornalistas e diplomatas estrangeiros, e que os leva a visitar a geografia da expansão dos colonatos. Visitei Ma’ale Adumim e vi uma cidade de 50 000 pessoas, com escolas, quartéis de bombeiros, shoppings, cinemas, piscinas, e jardins verdejantes rodeados de terra árida. Olha-se para fora do colonato e vê-se uma paisagem quase lunar, com terra seca, montes, e mais nada. Quem acha que os colonatos serão desmantelados mais cedo ou mais tarde numa solução definitiva nunca viu Ma’ale Adumim.

Março 22, 2010 Posted by | 1 | , , , , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: Surto de violência em Israel

A actual situação de tensão entre Israel e palestinianos, por um lado, e entre Israel e os EUA, por outro, tem vindo a ser cozinhada desde há ano e meio, desde o surto de violência protagonizado pelos colonos israelitas e que os opôs tanto aos palestinianos como às próprias forças de seguranças israelitas. Já na altura escrevi, num paper para o CEPESE da Universidade do Porto, que estas acções colocavam o Estado judaico perante um desafio ao Estado de direito e ao primado da lei. Nesse teste, Israel chumbou. Netanyahu e o seu governo de coligação com extremistas mais radicais do que Bibi, eleitos alguns meses depois, têm feito o resto. É  provável que, com Livni, a situação fosse diferente.

O quadro actual é formatado por duas ideias basilares: por um lado, a contínua expansão de colonatos israelitas está a fazer transbordar a ira dos palestinianos e, como já tantas e tantas vezes foi dito, enquanto este movimento persistir, não há sequer miragem de processo de paz. É uma contradição em si mesma. Por outro lado, a  tensão com os Estados Unidos parece chegar do facto de Obama e Hillary Clinton estarem a permitir que se perceba que perceberam que não têm em Netanyahu um parceiro credível para negociar. A escalada de retórica da parte de Washington surge agora por, com o Vice Joe Biden em Israel em viagem e tentativa de relançamento das negociações, persistirem os anúncios de que a expansão dos colonatos irá continuar, desta feita com mais 1600 casas em Ramat Shlomo. Washington considerou este anúncio um insulto, mas a verdade é que insultos destes há todos os dias. Aguarda-se a posição da Administração Obama neste que é, até agora, o maior desafio colocado perante si no que respeita ao seu empenho na resolução do problema israelo-palestiniano. Netenyahu terá percebido a fraqueza de Obama no que concerne ao conflito e foi esticando a corda. A verdade é uma: se nos últimos anos não houve senão retrocessos, a evidência empírica aponta para a necessidade óbvia de se mudar a abordagem.

As hipóteses de haver uma escalada de tensão ao ponto de originar uma terceira intifada serão maiores se houver, também, uma escalada de retórica e a adopção de determinadas medidas por parte da Autoridade Palestiniana. Se há facções palestinianas interessadas neste cenário, outras há para quem só o cenário actual é conveniente. A Fatah saberá que a violência potencia o extremismo e, por isso, beneficia em última instância o Hamas. E é nesta balança que os seus líderes terão de actuar, sendo certo que qualquer decisão tomada terá implicações decisivas na política da região.

(corrigido)

Imagem: UPI.com

Março 16, 2010 Posted by | 1 | , , , , , , , , | Deixe um comentário

Netanyahu e o braço-de-ferro

Muito boa a análise de Alexandre Guerra à questão da construção de 900 novas casas em Jerusalém Oriental. Netenyahu demonstra que, diplomaticamente, irá fazer valer as suas pretensões, independentemente da vontade de Washington; e confirma-se que Obama terá de se empenhar ao mais alto nível para conseguir avançar nas negociações de paz. Como Akiva Eldar escreve hoje no Haaretz, Netanyahu parece pressentir a fraqueza de Obama em questões relacionadas com o processo de paz, e é isso que tem permitido levar tão longe o braço de ferro com Washington. Obama terá de se envolver pessoalmente no processo de paz com uma profundidade superior à demonstrada até agora – só assim voltará a colocar Washington com um ascendente sobre Israel. 

Novembro 18, 2009 Posted by | 1 | , , , , | 1 Comentário

As núvens perpétuas do conflito

O Haaretz online noticia hoje que, apesar da objecção dos Estados Unidos, Israel pretende contruir mais 900 casas nos territórias da Cisjordânia. Pode ser interessante que os EUA, agora, se manifestem contra a expansão dos colonatos – mas a verdade é que isso, na prática, ainda não vale de nada.

Por outro lado, a União Europeia veio demarcar-se de apoiar uma declaração unilateral de independência por parte da Autoridade Palestiniana. Carl Bildt, chefe da diplomacia sueca, presidência em exercício da UE, veio dizer que, do ponto de vista diplomático, as atenções da UE estão concentradas no apoio a Washington nas suas tentativas de retomar negociações com ambas as partes. É bom que a UE não repita o erro ocorrido no Kosovo.

Hoje também a UE veio mostrar-se extremamente preocupada com a situação humanitária em Gaza, chamando uma vez mais a atenção para a necessidade de criar condições para a reconstrução de estruturas e para a recuperação económica no território.

Os dias passam, os anos passam, e não se vê uma simples luz ao fundo do túnel.  

 

Foto tirada a uma pintura de parede em Acre.

Novembro 17, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Al-Aqsa

DSC02715De acordo com a Estratégia Europeia de Segurança, de 2003, a “resolução do conflito israelo-árabe é uma prioridade estratégica para a UE, uma vez que, sem esta, haverá poucas hipóteses de lidar com outros problemas no Médio Oriente” (traduzo do inglês). Convém ter isto em mente quando se avalia a  actuação europeia na região. E convém também noção do passado, nomeadamente ter bem presente que a Segunda Intifada, que começou em Setembro de 2000, teve origem na Esplanada das Mesquitas.

Hoje, Javier Solana emitiu a seguinte declaração: I am very concerned about the recent clashes in East Jerusalem. I have been closely following the situation around the Al Aqsa mosque in recent days. I would like to urge all parties to refrain from provocative actions that could further inflame tensions or lead to violence. Everyone must take action to avoid escalation. Our continued priority remains the re-launching credible negotiations in an atmosphere conducive  to their success.” Muito cuidado.

Outubro 7, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

“1948”

1948Ainda está quase intacto na minha prateleira, mas Pacheco Pereira já o leu. Reproduzo a sua recensão, publicada no Abrupto. No fim pode comparar-se com o artigo publicado no Guardian e com a recensão – excelente – da New York Review of Books. “Nunca é tarde para aprender”, de facto.

Pacheco Pereira:

“A criação do estado de Israel é um dos resultados quase únicos no século XX de uma pura vontade política e de um movimento político, o sionismo, assente nessa vontade. Não haveria Israel se dependesse apenas da geopolítica, dos interesses das grandes potências, da realpolitik. Pelo contrário, embora os EUA fossem simpáticos para o novo estado, e a URSS permitisse algum apoio militar chegado na 25ª hora, a criação de Israel num processo duplo de guerra civil (que opunha judeus e palestinianos) seguido de um confronto militar com as potências árabes, em particular o Egipto, a Jordânia, o Líbano, o Iraque e voluntários e apoio saudita e iemenita, dependeu sempre dos judeus e da sua organização para-nacional, o Yishuv, e das suas organizações militares, como o Haganah. Contra tudo e contra todos, em particular contra os britânicos, aliados dos jordanos (a Legião Árabe na Transjordânia era a única força militar capaz que combateu contra o Haganah, dirigida por oficiais britânicos) e dos egípcios, e depois contra a ONU que sempre permitiu aos invasores militares de um estado que nascera sobre a sua égide aquilo que negava aos seus defensores e que várias vezes impediu Israel de obter vitórias significativas sob ameaça de intervenção militar… britânica.

O livro de Benny Morris é um excelente balanço desta guerra fundadora que permitiu a Israel existir, e apresenta o estado da arte na documentação sobre os aspectos do conflito que ainda hoje são controversos como a questão dos refugiados. Morris mostra como a “limpeza” das aldeias árabes dentro do território de Israel não foi deliberada no início e só se tornou inevitável devido a considerações militares, tornando-se depois numa política seguida sempre de forma hesitante, ao contrário do “expulsionismo” árabe que queria deitar os judeus ao mar. Igualmente se analisa o modo como os inimigos de Israel usaram a questão dos refugiados como arma política, recusando qualquer esforço de integração e condenando essas populações a uma situação de miséria em guetos suburbanos nos países limítrofes.

Mostra igualmente que os israelitas e palestinianos (menos os exércitos regulares árabes) cometeram vários massacres, mais os israelitas do que os palestinianos, mas como consequência do facto de as oportunidades serem maiores do lado judaico, devido ao facto de as ocupações de colonatos judeus pelos irregulares palestinianos terem sido escassas. Mostra igualmente como é que se evoluiu de uma guerra sem prisioneiros, (durante os dias finais do mandato britânico não podia haver campos de prisioneiros e as execuções eram comuns) conduzida por milícias, para uma guerra mais convencional em que a Convenção de Genebra passou a ser respeitada.

Morris acentua e bem a parte de jihad no conflito, a total e completa incapacidade do mundo islâmico em aceitar a existência de Israel, assente em considerações religiosas e históricas, que explica as enormes dificuldades que, mesmo os dirigentes árabes mais moderados (como o rei hashemita Abdullah, que acabou por ser assassinado o destino de todos os conciliadores como Sadat), tinham em lidar com a intransigência absoluta face à existência de Israel. A sua análise das duas culturas distintas, a do sionismo, pró-ocidental, com elementos de laicidade, um discurso próximo do socialismo europeu, e a pura incapacidade árabe de aceitar sequer uma negociação (o que comprometeu a posição árabe no plano diplomático face a um estado cuja existência era legal e reconhecida pela ONU), é fundamental para se perceber os dados actuais do conflito que, em muitos aspectos, continuam os de 1948.”

Recensão do Guardian:

“There was a time when revisionist historian Benny Morris was unemployable because of his supposed pro-Palestinian bias. Now he is a professor at Israel’s Ben-Gurion University, and last year this book won the National Jewish book award. What happened? In part, Morris and other New Historians reshaped Israelis’ understanding of their past. But Morris has changed, too, and today he is a disappointed liberal Zionist. In this impressive military history, written with admirable clarity, he remains sympathetic to the Palestinian Arabs expelled from their homeland, but adopts a harsher tone towards political Islam – what he calls “the jihadi impulse” underlying Arab hostility towards Jews and Zionism, a religious intolerance, signs of which he detects in 1948. The first Arab-Israeli war was not simply a nationalist war over territory but a war of religion, he now claims. Consequently, he is bleak about any possibility of reconciliation for as long as the Arab world remains unstable, oscillating “between culturally self-effacing westernisation and religious fundamentalism”

Ler aqui a recensão da NYRB.

Setembro 30, 2009 Posted by | 1 | , , | Deixe um comentário

Não há processo de paz

west-bank-israeli-_1000389cÉ muito simples: enquanto houver crescimento de colonatos na Cisjordânia, não há processo de paz. Porque o “processo” que existe nesse caso vai contra qualquer perspectiva de paz. Neste momento, nem a mão miraculosa de Obama vale de nada: não há processo de paz. No conflito israelo-palestiniano poucas coisas são tão simples de entender.

JERUSALEM (Reuters) – Israel approved on Monday the building of 450 settler homes in the occupied West Bank, a move opposed by its U.S. ally and Palestinians but which could pave the way for a construction moratorium sought by Washington.

A Defense Ministry list of the first such building permits since Prime Minister Benjamin Netanyahu took office in March showed the homes would be erected in areas Israel has said it intends to keep in a future peace deal with the Palestinians.

Palestinian chief negotiator Saeb Erekat said Israel’s decision further undermined any belief that it is a credible partner for peace.”

Ler o resto aqui. Foto: REUTERS. Colonato de Ofra, na Cisjordânia.

Little boxes on the hillside,
Little boxes made of ticky-tacky,
Little boxes on the hillside,
Little boxes, all the same.
There’s a green one and a pink one
And a blue one and a yellow one
And they’re all made out of ticky-tacky
And they all look just the same

Setembro 7, 2009 Posted by | 1 | , , , , | 1 Comentário

Ainda os pressupostos de Oslo

INSSQuem procura apenas uma visão equidistante e (pretensamente) independente do conflito israelo-palestiniano não lê as publicações do Institute for National Security Studies, da Universidade de Tel Aviv – isto apensar de ter sido considerado pela Foreign Policy um dos 5 think tanks mais influentes do Médio Oriente. Mas conhecer os argumentos de ambos os lados (ainda que expostos em separado) é importante para se poder formar o nosso próprio juízo.

Uma das suas últimas publicações, Oslo Revisited: Are the Fundamental Assumptions Still Valid?, apresenta, todavia, um conjunto plausível e honesto de explicações para não-aceitação, por parte da Autoridade Palestiniana, da proposta de paz feita pelo ex-Primeiro-Ministro Olmert. Por muitos considerada uma proposta aceitável (literalmente), baseava-se sobretudo na admissibilidade de uma soberania internacional sobre a Cidade Velha de Jerusalém (onde se encontram os locais sagrados do Cristianismo, do Judaísmo e do Islamismo), da transferência, para a Autoridade Palestiniana, de entre 95,3 a 95,7% dos territórios ocupados, e da criação de um canal de ligação entre a a Cisjordânia e Gaza. A proposta não admitia o direito de retorno – mas quem já esteve em Israel sabe que isso é literalmente impossível. Neste mesmo instituto foi-me dito que, nos momentos que requerem uma tomada de decisão pragmática e impopular, sucessivos líderes palestinianos recuam perante a vertigem da resolução do problema.

Cinicamente, oficiais israelitas disseram-me igualmente que, para as lideranças palestinianas, a resolução do processo de paz implicaria um abandono dos palestinianos à sua sorte, o término dos rios de dinheiro internacional e o consequente fim de uma certa mordomia. Isto não subscrevo. Neste momento, um Estado palestiniano é social e economicamente inviável – mas não pode deixar de ter a oportunidade de superar essa condição por imposição israelita.  

Setembro 2, 2009 Posted by | 1 | , , , , | Deixe um comentário

Título, não-título

Publico pt LOGONa edição impressa do Público de ontem, na página 20 (secção Mundo), há uma pequena notícia intitulada “Amnistia acusa Israel de violar direito internacional“. Mas é curioso notar que a primeira frase diz: “Tanto o Governo israelita como o Hamas “violaram a lei humanitária internacional” ao atingir civis durante o ataque de Israel a Gaza entre Dezembro e Janeiro, denuncia um relatório da Amnistia Internacional”. Ou seja, a Amnistia Internacional acusa Israel mas também acusa o Hamas. Quem não perde tempo a ler mais do que os títulos forma uma ideia errada. Neste caso, como em muitos outros, este lapso é inerente a uma agenda, devedora da ideia generalizada de que Israel viola sucessivamente  o direito internacional, omitindo outra ideia, perceptível pelo senso comum mas nem sempre publicitada em manchete: o Hamas viola sucessivamente o direito internacional. A lei é igual para todos, mas seremos todos juízes imparciais? Para não se cair no facilitismo do esquecimento, o óbvio também tem de ser dito.

Se esta mesma notícia na edição online tinha o título “Exército israelita e Hamas acusados pela AI de violar direito internacional“, quem mandou mudar o título na edição impressa?

Julho 4, 2009 Posted by | 1 | , , | Deixe um comentário

“New Hope for Peace”?

FMEP

A Foundation for Middle East Peace é uma instituição norte-americana que promove a divulgação de informação sobre o conflito israelo-palestiniano. Os seus relatórios mensais sobre os colonatos israelitas são talvez a principal referência nesta questão, e os mapas detalhados que fornece são também importantes instrumentos de análise. Agora, lançam um DVD chamado New Hope for Peace, em que recolhem depoimentos de quatro altas figuras da diplomacia norte-americana que estão ou estiveram de alguma forma ligados ao conflito: Jimmy Carter, James Baker, Brent Scowcroft e Zgibniew Brzezinski. Todos convergem na defesa da (óbvia) solução de dois estados e todos realçam a importância de uma liderança america forte – sobretudo, acrescento eu, quando o interlocutor palestiniano (a Autoridade Palestiniana) continua com pouco poder negocial e uma vontade (no mínimo) limitada e quando os interlocutores israelitas são Netanyahu e Lieberman. A primeira parte do documentário pode ser vista aqui, e abaixo reproduzo algumas das ideias de cada um dos quatro entrevistados.

Jimmy Carter – The overwhelming majority of Israelis and Palestinians want peace… The President should make his policies clear on settlements, home demolitions, Israel security, and East Jerusalem…

James Baker – The vast majority of the Israelis are tired of being a nation perpetually at war…they want to see a secure peace agreement, and so do the Palestinians… Hard liners on both sides are the biggest obstacles to peace…You have to talk to your enemies…

Brent Scowcroft – We must play a more active role…We need to act decisively and comprehensively…The President needs to step up and say “this is the American proposal.” …it will turn around the psychological atmosphere in the Middle East. 

Zbigniew Brzezinski – Two decent peoples are locked in a mortal embrace…they cannot move toward peace unless someone helps… It takes an impartial, energetic outside mediator… there is only one candidate…the U.S., and more specifically the President. 

Junho 29, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , | Deixe um comentário

Jerusalem, Washington

DSC06067Junto à Praça do Município, em Jerusalém, encontra-se este mapa gravado numa parede; um mapa-mundi que representa o mundo conhecido de então, com Jerusalém ao centro. Se hoje a Europa é o eixo, se em tempos era a China a ocupar esse lugar, também Jerusalém pôde reivindicar esse estatuto. E, de certa forma, ainda pode. Netanyahu foi a Washington dizer isso mesmo a Obama, com Teerão no pensamento; e é provável que ouça o mesmo acerca da importância de todas as questões relacionadas com a região, mas com uma perspectiva diferente. Obama sabe que, depois do Iraque em 2003, já basta de precipitações naquela zona. E sabe também que, sem um Estado palestiniano viável, não há, nem haverá nunca, uma paz duradoura na região. É por isso que a nota dominante da posição americana para este encontro com o Primeiro-Ministro israelita se relaciona com o processo de paz, e não com uma ofensiva contra o Irão.    

Maio 18, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

   

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