Tratados

Mais 500

Em Kandahar, cerca de 500 militantes taliban escaparam de uma prisão por um túnel de 350 metros de comprimento. Juntar-se-ão aos bandos que atacam as forças internacionais presentes na região, que atacam grupos tribais não alinhados com o seu islamismo extremo, que atacam população civil para punir, intimidar ou apenas para servir como exemplo. A geografia, o clima, a história, o passado e o presente impedem qualquer futuro que não seja de desgraça irremediável.

Fugiram 500 militantes da prisão. Mais meio milhar de soldados empenhados em manter o Afeganistão aquele lugar onde até Deus choraria.

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Abril 25, 2011 Posted by | Sem categoria | , , | Deixe um comentário

Mundo pequeno, este do terrorismo

Dois dias antes do 11 de Setembro de 2001, Ahmad Massud, o líder da Aliança do Norte (a força opositora aos taliban) foi assassinado num ataque suicida no Afeganistão por militantes ligados à al-Qaeda. Foi um golpe importantíssimo na oposição anti-taliban e um prenúncio para o 11 de Setembro, que estava já ao virar da esquina. Como sempre acontece quando se emprega este modus operandi, houve mais mortes durante este ataque para além de Massud.

Ontem, aqui na Bélgica, Malika El Aroud, cidadã belga de 50 anos, foi condenada a 8 anos de prisão ter criado, dirigido e financiado um grupo terrorista neste país. Com ela, mais 7 pessoas foram condenadas por integrar a mesma célula, com penas a oscilar entre os 40 meses e os 8 anos. De acordo com o que a investigação apurou, um email foi interceptado dando conta de que um ataque terrorista estaria iminente. Malika El Aroub era viúva de um agente da al Qaeda que morreu em sequência daquele atentando em vésperas do 11 de Setembro. Quando se passa uma barreira mental e se entra na esfera do terrorismo, nenhum ódio se perde nem desaparece; nada se perde, tudo se transforma.

A história completa da relação entre Malika e Abdessattar é fundamental para perceber algumas das dinâmicas das células terroristas na Europa. A forma como ambos se conheceram na Bélgica, como Malika entrou no Islão mais radical, a forma como ela e o namorado idolatravam a figura de Bin Laden, tudo isso está descrito neste excelente “Love in Times of Terror“, reportagem publicada na Marie Claire há um ano atrás. Tudo isto acontece debaixo dos nossos olhos, e no entanto não o conseguimos ver. Este é que é o problema.

Maio 11, 2010 Posted by | Sem categoria | , , , | Deixe um comentário

CIA pelos ares no Afeganistão

No decurso de um conflito internacional, para além das baixas dos civis e dos militares, há as mortes dos agentes secretos, dos operacionais das organizações de espionagem que jogam em tabuleiros paralelos, mais longe dos holofotes mas mais perto das decisões. Muitas vezes, é neste jogo que as guerras se ganham ou se perdem. No caso da guerra do Afeganistão, entre Novembro de 2001 e Outubro de 2003, morreram pelo menos quatro agentes da CIA: na perseguição a terroristas, em revoltas de prisioneiros taliban, em exercícios.

Ontem, na base da CIA em Khost, foram oito os norte-americanos mortos por um bombista suicida. O ataque foi reivindicado por um porta-voz dos taliban, que referiu tratar-se de um acto perpetrado por um agente do Exército Nacional Afegão. Duro revés para as forças americanas. Como referiu Bruce Hoffman, “every American death in a theater of war is tragic, but these might be more consequential given these officers’ unique capabilities and attributes.” Pode ser que nunca se venha a saber quais as consequências deste revés, quais as acções abortadas ou definitavemente comprometidas. Ou isso ou esperar por um segundo volume, outras 800 páginas.

 

Dezembro 31, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Ainda o jornalismo de guerra

Li o relato interessantíssimo feito por Stephen Farrell, o jornalista do New York Times libertado após ter sido mantido em cativeiro 4 dias pelos taliban. É um texto relativamente longo e com algum detalhe, e que traz algumas ideias interesantes. Destaco estas duas passagens:

Once away from immediate pursuit, they transferred me to a waiting car and drove into the dusty back roads of Char Dara District at high speed. “Russian?” one asked me, a question that seemed so out of recent historical context that it made my heart sink.

As Day 2 passed into 3, amid a blur of different houses and days spent sleeping, hoping and worrying, the mood changed. It became harder for them to find safe houses. They would get lost down ever narrower and ever more obscure country lanes. We would arrive at a building late at night, bang on the gate and eventually be admitted — never knowing if the Taliban had just picked on a house at random and demanded entrance or arranged it in advance.

Mas, mais do que saber pormenores acerca do cativeiro, preocupa-me questionar a acção das tropas britãnicas, sobretudo a decisão de desencadear uma acção militar para resgatar dois jornalistas. Deverá ser esta uma prioridade das tropas? Para além de um outro repórter do NYT e, segundo outros relatos, de alguns taliban, morreu também um soldado britânico. Será que foi para o Afeganistão para morrer a salvar um jornalista que se expôs ao perigo de um rapto? Stephen Farrell disse que o local onde se realizou o rapto era seguro. Mas era o local onde a NATO tinha atacado na véspera, e, no mínimo, era previsível que os taliban quisessem capitalizar politicamente aquela acção, que tantos civis matou. Stephen Farrel já havia sido raptado – e salvo – no Iraque. 

O contributo dos repórteres de guerra para a compreensão dos conflitos não pode ser sequer questionado. E compreendo a dificuldade de, política e militarmente, decidir “abandonar” à sua sorte um civil raptado. Mas este caso não deixa de me causar perplexidade, até pela reincidência. Será o resgate de jornalistas uma prioridade militar? Ou estaremos antes perante uma inversão de prioridades? O texto termina com Farrell a contar como se apercebeu que um soldado britânico havia morrido na operação, quando a cabeça e o capacete deste se intrometeram entre uma bala e Farrell. E remata com este a dizer “I thanked everyone who was still alive to thank. It wasn’t, and never will be, enough.” Pois.

Setembro 10, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Eleições no Afeganistão III

capt_kab11009180958_afghanistan_elections_kab110Os observadores europeus concluíram que as eleições de quinta-feira no Afeganistão foram “em geral boas e justas”, mas não inteiramente livres, porque a violência e intimidação afastaram os eleitores das urnas em várias partes do país. Um diagnóstico que é mais positivo do que o da principal organização afegã, que disse ter detectado “múltiplas fraudes”. No Público.

Reports of fraud and intimidation in Afghanistan’s presidential election continued to mount Saturday, with anecdotal but widespread accounts of ballot-box stuffing, a lack of impartiality among election workers and voters casting ballots for others. A particular concern was the notably low turnout of women, who election observer organizations said were disproportionately affected by the violence and intimidation. No New York Times.

THIS is the just war, the “war of necessity”, as Barack Obama likes to put it, in contrast to the bad war, the war of misguided choices in Iraq. But as a deeply flawed election went ahead in Afghanistan this week, there were echoes, in the mission by America and its allies, of the darkest days of the Iraq campaign: muddled aims, mounting casualties and the gnawing fear of strategic defeat. Gloomy commentators evoke the spectre of the humiliations inflicted by Afghanistan on Britain in the 19th century and the Soviet Union in the 20th. Na Economist.

Imagem recolhida em www.bittersweetme.net.

Agosto 23, 2009 Posted by | 1 | , , , | Deixe um comentário

Eleições no Afeganistão II

capt_kab11009180958_afghanistan_elections_kab110Senhor Ahmed Rashid, enquanto grande especialista sobre temas relacionados com o Afeganistão, Paquistão e taliban, porque é que considera estas eleições  tão importantes?

It is critically important considering the new Obama plan, which is focusing for the first time since 2001 on rebuilding the country and driving out al-Qaeda. But there is a timeline here with the Americans wanting to achieve results by the end of next year. It is absolutely imperative that political stability is there in order to carry out many of the reconstruction elements that the international community and the Afghans want. Political stability needs legitimacy, and a legitimate government is central to that.

Imagem recolhida em www.bittersweetme.net.

 

Agosto 22, 2009 Posted by | 1 | , , | Deixe um comentário

Eleições no Afeganistão

capt_kab11009180958_afghanistan_elections_kab110Daniel Markey, especialista do Council on Foreign Relations para a Índia, Paquistão e Ásia do Sul, sobre a importância das eleições de 20 de Agosto para o Paquistão:

For Pakistan, the concern has to do with basic political and military stability in Afghanistan. The election is one piece in that process. From a Pakistan perspective, an Afghanistan that returns to deep instability as it has in the past, specifically in the 1990s, would be a cause for concern for Pakistan because it would probably bring greater instability inside Pakistan. An election that works and yields a legitimate government of some kind are basic interests from a Pakistan perspective. The other side, of course, is that Pakistan would like to project its influence into Afghanistan. So to the extent that various candidates offer different potential for Pakistan to do so, Islamabad is more or less a supporter of them. Pakistanis tend to see Karzai as maybe the best of the two serious options–the other being Abdullah Abdullah–simply because he’s a known quantity and a Pashtun who has a reasonably good working relationship with the current government in Islamabad.

Ler aqui o resto da entrevista, realizada por Jayshree Bajoria. Imagem de www.bittersweetme.net.

Agosto 22, 2009 Posted by | 1 | , , | Deixe um comentário

ANÁLISE :: De AfPak a PakAf

 Pakistan taliban May 2009

Num relatório de Abril publicado pelo Council on Foreign Relations, Daniel Markey sugere que a estratégia norte-americana para a Ásia do Sul deixe de ser designada pelo petit-nom de AfPak, e passe a assumir-se como PakAf. A lógica da proposta é óbvia: desde há vários meses, o Paquistão tem vindo a substituir o Afeganistão no topo da lista de preocupações dos norte-americanos relativas àquela região. Todo o contexto político, geográfico, militar e governativo apontam para um cenário que põe em causa, de forma inquestionável e incomparável, o sistema de segurança internacional.

Este quadro geral é traçado igualmente num artigo de Ahmed Rashid a publicar no próximo número da New York Review of Books, que será editado na versão de papel apenas no dia 11 de Junho, mas que já se encontra disponível online desde a semana passada. Em “Pakistan on the Brink“, o autor de “Os Talibãs” (2000) e de “Descent into Chaos: How  the War Against Islamic Extremism is being lost in Pakistan, Afghanistan and Central Asia” (2009) descreve sumariamente o mosaico da instabilidade paquistanesa referindo as cumplicidades entre as forças militares e os serviços secretos (Inter-Services Intelligence Directorate), por um lado, e os taliban, por outro; a incapacidade de decisão, o isolamento e falta de autoridade do presidente Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto; a emergência de novos grupos terroristas com agendas políticas tão diversas como o apoio à al-Qaeda e/ou aos taliban, a luta contra a India ou reforço do nacionalismo pashtun, entre muitos outros; e o avanço dos taliban, que actualmente controlam ou reclamam controlo de 11% do território. Após se instalarem em Quetta em 2007, assumindo-a como a sua nova capital, os taliban têm avançado ao longo da fronteira com o Afeganistão para  Norte e para o interior, estando actualmente a poucas dezenas de kms da capital Islamabad. O mapa reproduzido acima, retirado de uma notícia do BBC World Service de 13 de Maio, aponta para uma presença crescente dos taliban no norte do país, uma zona onde, de acordo com os dados recolhidos pelos correspondentes da BBC e detalhados na notícia, o Governo central apenas detém controlo sobre 38% do território.

Há duas ideias que devem ainda ser deixadas: em primeiro lugar, apesar do sucesso da ofensiva, existem várias divergências entre os taliban e outros grupos que têm participado nas acções e entre as diferentes facções dentro dos próprios taliban – o que poderá  dificultar ainda mais uma resposta eficaz da parte do governo paquistanês e de, eventualmente, forças internacionais, numa fase talvez não muito distante.

pakistan-map-airbase

Em segundo lugar, e como Hillary Clinton assinalou em 23 de Abril, a presença dos taliban no Paquistão representa “uma ameaça mortal para o mundo”, porque nunca antes um grupo terrorista esteve tão perto de aceder a arsenais nucleares. De acordo ainda com o artigo citado de Ahmed Rashid, o Paquistão terá entre 60 e 100 armas nucleares, a maioria das quais se encontra na parte ocidental da província de Punjab, onde os taliban têm feito algumas incursões recentemente. O segundo mapa reproduzido ilustra a importância estratégica desta província, assinalando a presença, aqui, da maioria das bases aéras paquistanesas. As próximas semanas e os próximos meses mostrarão certamente um aumento da violência e uma intensificação das ofensivas de ambas as partes – mais do que isto, neste cenário tão complexo e volátil, é difícil de prever.

 

 

Junho 2, 2009 Posted by | Sem categoria | , , , , , | Deixe um comentário

   

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